Jesse Lauriston Livermore: 1877 – 1940 Parte 2

… leia Jesse Lauriston Livermore: 1877 – 1940 Parte 1.

Recomeçando

Logo depois de seu divórcio, Jesse Livermore conheceu Harriet Metz Noble, uma rica mulher cujos pais eram donos de uma famosa cervejaria. Eles namoraram por 6 meses e decidiram se casar. Era o quinto casamento de Harriet, seus outros 4 maridos haviam cometido suicídio.

Dorothy continuou sua vida de maneira desleixada, deixou a mansão Evermore ir se destruindo aos poucos, ela deixava os cachorros fazerem suas necessidades nos tapetes persas, quandoo a fundação de um dos quartos cedeu, em vez de arrumar, ela serrou os móveis extremamente caros para deixá-los ao nível do chão. Um dia a destruição era tão grande que não era mais possível morar lá, ela pegou o que ainda prestava e se mudou para um apartamento em Nova Iorque.

Quando os impostos da mansão vieram, Dorothy mandou Jesse pagar, ele a ignorou. A propriedade Evermore tinha sido avaliada em 1.35 milhões de dólares apenas um ano antes, mas foi leiloada em 22 de junho de 1933 por apenas 168 mil, vários itens também foram vendidos, todos por valores ridículos. Depois disso, Dorothy se mudou para Santa Barbara.

Bola de neve

Jesse Livermore com um amigo não-identificado

Jesse e um amigo não-identificado

Ainda em 1933, Jesse Livermore descobriu que “Boston Billy” Monaghan tinha jurado vingança contra ele por acreditar que ele e os outros que foram assaltados, manipularam o juíz de modo que uma sentença excessiva fosse aplicada à Monaghan. Jesse não tinha feito nada, mas não sabia das outras pessoas. Em setembro, um caso foi notícia, dois homens, Buell Dawson, um gângster, e James Walsh, um ex-companheiro de cela de Monaghan, discutiam em ir barco a melhor forma de sequestrarem Jesse Livermore e E. L. Doherty, um rico homem de negócios do setor petroleiro. Eles se desintenderam e e começaram a brigar, Walsh sacou uma pistola e matou Dawson. Livermore ficou sabendo da notícia logo depois, e ela serviu ainda mais para abalar seu humor, criminosos querendo sequestrá-lo, nada de bom pode sair disso.

Para piorar, no final de outubro, Nadia Krasnova entrou com um processo sobre Livermore, acusando-o de ter prometido se casar com ela mas não ter cumprido a promessa. O valor pedido era de 250 mil. Esse evento irritou Harriet que começou a perder a confiança em Livermore, o clima entre os dois nunca mais foi o mesmo.

No dia 19 de dezembro de 1933, Jesse teve um colapso. Ele deixou seu apartamento às 3h30 da tarde e não voltou mais. Harriet começou a ficar preocupada e ligou para a polícia. Logo as notícias se espalharam, Jesse Livermore, o Grande Urso de Wall Street estava desaparecido. Quando começaram a suspeitar de sequestro, o FBI foi chamado. Um dia depois, ele voltou para casa às 6h15. Harriet estava conversando com detetives quando ele apareceu, ele disse que não se lembrava de nada, que estava com a mente embaçada e que tinha ficado em um hotel, quando acordou naquela manhã, viu no jornal as notícias de seu desaparecimento e voltou imediatamente. Os médicos chamaram de colapso nervoso.

Tudo estava contra Jesse naquele momento, seu casamento tinha acabado, sua nova esposa não confiava nele, sua mente estava se descontrolando, tinha medo de sequestro e ainda era processado. Ele estava diferente, seus amigos perceberam que Jesse não estava bem, estava distante, seu interesse pela especulação estava diminuindo. Livermore mudou seu escritório de lugar e demitiu seus funcionários, ele também deixou de ver seus amigos e se isolou. Tudo isso se refletiu em sua conta, não tenho como saber os valores exatos mas em março de 1934, o famoso garoto especulador entrou com pedido de falência, ele estava quebrado, novamente. Dois dias depois ele foi expulso como membro da Chicago Board of Trade. Não aguentou a pressão e decidiu tirar férias para tentar pôr a cabeça de volta no lugar. Funcionou, por um tempo.

Um tiro em Santa Barbara

Policial aponta o local onde Jesse Jr. foi baleado

Policial aponta o local onde Jesse Jr. foi baleado

Na noite do dia 29 de novembro de 1935, Jesse Livermore Jr. chegou em casa bêbado, sua mãe percebeu e o acusou disso, Jesse Jr. retrucou dizendo que ela também estava bêbada, logo começaram a discutir. Ele pegou uma garrafa de whisky e disse que provaria que um homem de verdade aguenta mais bebida do que qualquer mulher, Dorothy gritou que preferia ter um filho morto do que um beberia até a morte. Jesse Jr aceitou a provocação e saiu da sala, voltou com uma espingarda, a posicionou nas mãos da mãe e disse: “Aqui, anda, atire! Eu duvido!”. O novo namorado de Dorothy, D. B. Neville, interviu e tirou a espingarda das mãos de Jesse Jr, que saiu em disparada ao quarto de Paul, seu irmão menor. Lá, ele pediu o rifle e munição do caçula, carregou a arma e desceu. Paul estava acostumado com as brigas então apenas esperou em sua cama pelo término de mais uma discussão.

Jesse Jr. ao descer as escadas, encontrou sua mãe nos primeiros degrais, ele colocou o rifle nas mãos de Dorothy, que como usava armas a muito tempo, automaticamente colocou seu dedo no gatilho. Jesse gritou: “Essa é sua chance de me matar, mãe! Mas você precisa ter coragem de apertar o gatilho!”, Jesse pressionou fortemente seu peito contra o cano do rifle, que disparou. Jesse caiu no chão, sangrando. Dorothy começou a berrar: “Meu Deus eu atirei no meu filho, eu atirei no meu filho, óh Deus, óh Deus”. Neville chegou na sala no momento do disparo. Paul saiu voando de sua cama. Um dos empregados, Lucien, ligou para um médico, que veio imediatamente, acompanhado pelo xerife. Uma ambulância chegou e levou Jesse Jr. para o hospital, suas palavras antes de entrar na ambulância foram: “Eu estou bem, não foi nada. Não culpem minha mãe.”

A bala tinha passado muito perto de seu coração, ele teve sorte de não ter morrido naquela hora. Porém a situação se agravou, Jesse Jr pegou pneumonia e sua saúde foi se deteriorando. Era necessário que os médicos tirassem os fluídos diretamente dos pulmões dele, um processo extremamente doloroso que precisava ser repetido constantemente. Depois de muito tempo e muita dor física e emocional, Jesse Jr melhorou. Alguns meses depois, passou por uma cirugia e tirou a bala que ficou alojada em sua coluna. Ficou com sequelas, dores nas costas e uma curvatura na espinha, posteriormente ele seria dispensado do serviço militar na Segunda Guerra Mundial por causa disso.

Dorothy precisou resolver a situação perante ao juíz, ela foi acusada de ter usado uma arma mortal com o objetivo de cometer um assassinato. Seu ex-marido, Jesse Livermore, profundamente abalado pela situação toda, interviu e colocou os melhores advogados para defenderem Dorothy, afinal, ela ainda era a mãe de seus filhos. Finalmente em janeiro de 1936 o caso foi encerrado. Dorothy foi inocentada, já que tudo foi apenas um acidente, até Jesse Jr testemunhou a favor da mãe. Pelos menos ninguém tinha morrido, ainda.

Dorothy perante o juíz do tribunal

Dorothy ouve o juíz Ernest Wagner no tribunal

O fim

Alguns anos depois, em 1939, Jesse Jr sugeriu ao seu pai que escrevesse um livro sobre suas experiências e técnicas na especulação. Isso fez bem para o humor de Jesse Livermore, pois agora ele tinha um objetivo. O livro foi lançado em 1940 com o título “How to Trade in Stocks”. Mas o interesse pelo mercado de ações na época era baixo, além disso a análise técnica não era levada muito à sério. O livro vendeu muito pouco e recebeu críticas mistas, eu gostei bastante mas não posso negar que comercialmente, ele tenha sido um fracasso.

how-to-trade-in-stocks

A versão original pode ser encontrada no esnips.com

Em 27 de novembro de 1940, Livermore e sua esposa Harriet estavam no Stork Club, um fotógrafo pediu permissão para tirar uma foto, Jesse disse que era para aproveitar a oportunidade porque ele iria se afastar por muito, muito tempo”. O Grande Urso de Wall Street, depois de um divórcio, processos, várias falências, ameaças de sequestro, um assalto, sua ex-esposa ter baleado seu próprio filho, perdido todo seu dinheiro, ser expulso da Chicago Board of Trade e finalmente ter escrito um livro que foi mal recebido, simplesmente não aguentou mais.

Pelas portas do Sherry Netherland Hotel em 28 de novembro de 1940 às 12h30, horário de almoço, um magro e pálido Jesse Livermore entra e se dirige ao bar. Enquanto toma seu drink preferido, abre um bloco de notas e começa a escrever freneticamente, ele para, pede outro drink, e continua, o bartender depois disse para a polícia que ele parecia estar sob grande estresse emocional. Jesse se levanta e volta para seu escritório. Algumas horas depois, às 4h30, ele volta ao hotel e repete o processo, toma seu drink enquanto escreve no bloco de notas. Uma hora depois ele se levanta, vai em direção à sala onde casacos dos hóspedes eram guardados, que era distante do movimento do hotel. Ele se senta na sala, aponta uma pistola Colt de 32 calibre logo abaixo de sua orelha direita e aperta o gatilho. A bala perfura seu cérebro causando morte instantânea.

Depois de algum tempo um funcionário o descobre, morte, com uma grande poça de sangue no chão. A polícia chega, jornalistas chegam, é o caos. Um policial leu para a imprensa o conteúdo das notas, era composto mais ou menos disso: “Minha querida Nina (apelido de Harriet), não consigo me ajudar. As coisas ficaram ruins para mim. Eu estou cansado de lutar. Não aguento mais. Essa é a única saída. Eu não mereço o seu amor. Eu sou um fracasso. Eu realmente sinto muito mas essa é minha única saída. Com amor, Laurie (apelido)”.

Assim que Jesse Jr soube da notícia, ele foi identificar o corpo de seu pai, logo depois desabou a chorar. Paul, que estava em Connecticut, voltou imediatamente. Harriet desmaiou assim que descobriu que seu quinto marido havia comedito suícidio, depois, se ocupou em esconder as jóias que tinha, ela ficou com tudo que sobrou de Jesse, o que, tirando o fundo de 1 milhão, não era grande coisa considerando que ele tinha mais passivos do que ativos.

Jesse Livermore foi cremado no dia seguinte na presença de seus dois filhos, Harriet, o Reverendo Edgar Crossland e seu velho amigo, Alexander P. Moore. Depois da cerimônia, Paul foi encontrar sua mãe, Dorothy, que o estava esperando no Brooklyn, juntos eles choraram pela morte de Jesse Lauriston Livermore, o garoto especulador, o Grande Urso de Wall Street que, finalmente, encontrava o sossego que tanto precisava na tranquilidade da inexistência.

Aprendendo com os pioneiros

Jesse Livermore

Jesse Livermore: 1877 - 1940

É sempre bom aprendermos com nossos erros, mas é mais fácil e muito menos doloroso aprendermos com os erros dos outros. Jesse Livermore foi um dos pioneiros da análise técnica, logo ele errou, e muito. Mas até um certo ponto, podemos dizer que ele foi sim muito bem sucedido, ele esteve lá e conseguiu. Portanto aprendemos com seus erros e os seus acertos. Suas contribuições para o estudo da especulação são extremamente valiosas até hoje. Fomos “presenteados” com o ótimo Memórias de um Operador da Bolsa e o inteligente, simples e direto, How to Trade in Stocks. Logo, só temos a agradecer.

Jesse Livermore World’s Greatest Trader

por Richard Smitten

Ótima biografia do grande trader

Novamente tudo o que eu escrevi aqui foi um resumo da biografia de Jesse Livermore escrita por Richard Smitten, comprei no Amazon. Em meu breve resumo eu deixei muita coisa de fora, justamente para não fugir muito do ponto principal, o de porque ele ter se matado. Todos que forem ler o livro de Smitten encontrarão muitos detalhes e um ótimo desenvolvimento, além de um capítulo dedicado ao quê aconteceu com os Livermore depois da morte de Jesse, o que inclui outro suicídio, se quiserem saber do que estou falando, procurem no Google ou leiam o livro. Smitten explica também algumas regras e técnicas de Livermore, ou seja, novamente um livro 2 em 1, recomendado para todos interessados na vida do Grande Urso de Wall Street e por análise técnica clássica.

Qual sua opinião sobre o Jesse Livemore? Você utiliza seus conceitos no seu trading? Compartilhe!



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8 Comentários Jesse Lauriston Livermore: 1877 – 1940 Parte 2

  1. mailo

    Eu li “memórias de um operador..” e sou daqueles que considera o melhor livro sobre o tema já feito, melhor até que livros técnicos.

    Não li a biografia, vou procurar. Não sei como Hollywood, ou mesmo a tv americana, ainda não fez um filme sobre ele, tem muito material para desenvolver um ótimo filme (não só para quem se liga em mercado).

    Responder
    1. Hugo

      Hey mailo,

      Como o velaepavio disse um dia aí: “Hollywood vê o especulador como vilão”

      Ninguém se importa com eles lá, apenas com os corretores. Pobre pensa pequeno, inclusive nos filmes sobre finanças: é tudo sobre as comissões das operações daqueles que realmente jogam o jogo.

      Abraço,
      Hugo

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    1. Hugo Teixeira

      Foi o filho mais velho dele.

      O cara se tornou um perdedor mimado na vida, chegou a ser preso tudo e um dia se trancou num quarto e ligou o gás depois de tomar uns tranquilizantes se eu me lembro bem… talvez tenha se dado um tiro, não lembro… o que lembro é que tinha alguma coisa com gás. 😉

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  2. Marcos

    Excelente texto, escrito com maestria, não conhecia muitos detalhes surpreendentes. Duas coisas, para mim, são as mais importantes ensinadas por JL, uma seria sua força para recomeçar. ,outra foi a paciência para aguardar o melhor momento para operar. É bom lembrar que JL tinha esquizofrenia, que deixa o paciente com tendências suicidas, e à época não havia medicamentos para tal.

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  3. Fernando Moreira

    “depois de um divórcio, processos, várias falências, ameaças de sequestro, um assalto, sua ex-esposa ter baleado seu próprio filho, perdido todo seu dinheiro, ser expulso da Chicago Board of Trade e finalmente ter escrito um livro que foi mal recebido, simplesmente não aguentou mais.”

    Eu acho q tb não aguentaria…

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