Caro leitor,
Ontem, 20 de julho, começou oficialmente o período das convenções partidárias para as eleições de 2026.
É quando os partidos começam a definir seus candidatos, alianças e chapas.
Até 5 de agosto, muita coisa ainda pode mudar.
E junto com tudo isso, surge uma pergunta que atormenta muitos investidores a cada quatro anos:
“O que eu deveria fazer com a minha carteira antes da eleição?”
Talvez você já tenha uma opinião forte sobre quem vai vencer.
Talvez tenha ainda mais certeza sobre quem seria “melhor para o mercado”.
Mas deixe-me fazer uma pergunta um pouco incômoda:
O sucesso do seu patrimônio realmente deveria depender de você acertar o resultado de uma eleição?
Investidor ou Torcedor?
Em períodos eleitorais, o mercado financeiro começa a parecer uma arquibancada.
Cada pesquisa vira um gol.
Cada declaração vira uma falta perigosa.
Cada nova aliança vira uma possível virada no placar.
E o investidor, sem perceber, deixa de analisar riscos e começa a torcer.
O problema é que votar e investir são atividades completamente diferentes.
Na urna, você escolhe o candidato que considera melhor.
Na carteira, você precisa lidar com todos os cenários possíveis. Ou seja: inclusive aquele que você não deseja.
Você pode votar com convicção.
Mas não deveria investir como um torcedor.
Porque acertar o vencedor é apenas a primeira parte de uma sequência muito mais difícil.
Depois de prever quem vence, você ainda teria de acertar qual programa econômico será realmente executado.
Quais promessas sobreviverão ao Congresso.
Quem fará parte da equipe econômica.
Como o mercado reagirá.
E quanto de tudo isso já está embutido nos preços.
Ou seja: não bastaria acertar a eleição.
Você precisaria acertar também a reação à eleição.
E a história mostra como isso pode ser traiçoeiro.
Quando Acertar o Vencedor Não Basta
Em 2002, o risco-Brasil disparou, o dólar subiu mais de 50% no ano e muitos investidores atribuíram tudo à possível vitória de Lula.
Mas o próprio Banco Central registrou que a crise eleitoral se misturou à situação argentina, a rebaixamentos de risco e à crise no mercado americano.
Era impossível separar perfeitamente uma coisa da outra.
Em 2022, aconteceu algo ainda mais interessante.
Depois da vitória de Lula, o Ibovespa abriu o primeiro pregão em queda de 2%.
Parecia confirmar a previsão pessimista de parte do mercado.
Só que, ao final do dia, o índice fechou em alta de 1,3% e o real se valorizou mais de 2%.
Ao mesmo tempo, ações de algumas empresas estatais caíram fortemente.
Quem acertou o vencedor acertou a abertura, o fechamento ou as estatais?
Percebe a armadilha?
O mercado não reage a um único fato.
Ele reage à diferença entre o que aconteceu e o que já era esperado.
Reage à composição do Congresso.
À equipe escolhida.
À qualidade da transição.
Às propostas fiscais.
E ao que acontece no restante do mundo.
Aliás, em 2026 não serão escolhidos apenas presidente e governadores.
Toda a Câmara dos Deputados estará em disputa, além de 54 das 81 cadeiras do Senado.
Isso significa que o presidente eleito não governará sozinho.
Promessa de campanha não é política aprovada.
E política aprovada não é necessariamente política bem executada.
A Pergunta Certa
A pergunta mais útil, portanto, não é:
“Quem vai ganhar?”
Mas sim:
“O meu planejamento continua de pé se o resultado for diferente daquele que eu espero?”
Essa mudança parece pequena.
Mas ela separa uma estratégia patrimonial de uma aposta eleitoral.
Uma aposta precisa que um cenário específico aconteça.
Uma estratégia reconhece que o futuro é incerto e procura evitar que um único erro de previsão comprometa objetivos importantes.
Isso não significa ignorar a eleição.
Eleições podem influenciar o câmbio, as contas públicas, a regulação, o custo de capital e os resultados de diferentes empresas.
O ponto é outro.
Sua tranquilidade financeira não deveria depender de uma pesquisa eleitoral, de um debate na televisão ou do humor do mercado na manhã seguinte à votação.
Para quem construiu um patrimônio relevante, a exposição ao Brasil não está apenas na corretora.
Está na renda profissional.
Na empresa da família.
Nos imóveis.
Nos recebíveis.
Nas despesas e nos projetos futuros.
Olhar apenas para os investimentos financeiros pode esconder riscos presentes no restante do patrimônio.
É por isso que uma análise séria precisa começar pelo todo.
Pelos seus objetivos.
Pela sua situação financeira.
Pelo seu perfil de risco.
E pela capacidade de atravessar cenários diferentes sem decisões desesperadas.
Esse é um dos papéis mais importantes de uma consultoria de investimentos independente.
Não prever a urna como se tivesse uma bola de cristal.
Mas separar convicção política de decisão financeira.
Testar premissas.
Identificar riscos que você talvez não esteja enxergando.
E ajudar a construir um plano que continue fazendo sentido mesmo quando o mundo não segue o roteiro esperado.
Porque, no fim das contas, a melhor carteira eleitoral não é aquela que exige que você acerte a eleição.
Você vai escolher seu voto em outubro.
Só não permita que a sua carteira também vire uma cédula eleitoral.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos