Caro leitor,

Você confiaria a gestão do seu patrimônio ao (provável) homem mais inteligente da história?

A resposta instintiva, para a maioria, seria um sonoro “sim”.

Afinal, se alguém consegue desvendar as leis da gravidade, inventar o cálculo infinitesimal e explicar o movimento dos corpos celestes, certamente conseguiria entender um gráfico de preços ou um balanço patrimonial.

Certo?

Definitivamente!

Mas isso não significa que ele era incapaz de cometer erros. Sérios erros.

Hoje, quero te contar uma história real que assombra investidores há três séculos.

Uma história que prova, de uma vez por todas, que QI (Quociente de Inteligência) não garante sucesso nos investimentos.

Na verdade, em alguns casos, a inteligência excessiva gera uma arrogância que precede a ruína.

Estamos em 1720. O cenário é Londres.

O ativo da moda não era uma criptomoeda meme, nem uma empresa de Inteligência Artificial com P/L esticado. Era a South Sea Company (Companhia dos Mares do Sul).

A promessa? O monopólio do comércio com a América do Sul.

A realidade? Um negócio medíocre, atolado em burocracia e que gerava muito pouco lucro real. Mas que tinha uma narrativa fantástica.

Sir Isaac Newton, então Mestre da Casa da Moeda Real (um cargo de prestígio financeiro), era um investidor experiente.

Ele não era um novato.

No início de 1720, percebendo a movimentação do mercado, Newton comprou ações da South Sea.

Pouco tempo depois, o preço subiu.

Sendo um homem racional, lógico e prudente, Newton analisou tudo e tomou uma decisão: ele embolsou o lucro.

Vendeu sua posição e saiu com um ganho de £7.000 (uma pequena fortuna na época, equivalente a milhões de reais hoje).

Até aqui, temos um investidor eficiente. Frio. Calculista. Estratégico.

Mas foi então que o mercado, com seu humor sádico, pregou uma peça.

Após a venda de Newton, as ações da South Sea não caíram.

Elas subiram.

E subiram mais.

E continuaram subindo vertiginosamente.

Newton via conhecidos (pessoas que ele considerava intelectualmente inferiores, que não sabiam a diferença entre uma maçã caindo e a lua orbitando) ficarem obscenamente ricos.

Lordes, comerciantes e até seus empregados estavam dobrando e triplicando seus patrimônios em semanas.

E foi aí que começou.

A racionalidade de Newton começou a ser corroída por sentimentos muito mais primitivos e perigosos do que a ignorância:

Orgulho e, especialmente, FOMO (Fear of Missing Out, ou o Medo de Ficar de Fora).

Charles Kindleberger, um grande historiador econômico, escreveu certa vez: “Não há nada que perturbe tanto o nosso bem-estar e julgamento quanto ver um amigo ficar rico.”

Newton não aguentou.

Ele foi um dos homens mais racionais da história, mas cedeu.

A emoção venceu a lógica.

No verão de 1720, perto do pico histórico da bolha, o gênio reentrou no mercado.

Mas ele não entrou com pouco.

Tomado pela euforia e pela certeza de que o mercado só iria subir (“To the moon”, como diriam hoje), ele investiu praticamente tudo o que tinha. O lucro anterior e o principal.

Você já deve imaginar o final dessa história.

Em setembro daquele ano, a bolha estourou.

O castelo de cartas desmoronou com a mesma velocidade com que subiu.

Newton vendeu tudo no fundo do poço, amargando um prejuízo de £20.000.

Em valores corrigidos pelo poder de compra e status da época, estima-se que ele queimou o equivalente a mais de R$ 20 milhões.

Foi após esse desastre que ele proferiu uma das frases mais dolorosas e verdadeiras da história financeira:

“Eu consigo calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas.”

Dizem que, até o fim de sua vida, Newton proibia que qualquer pessoa pronunciasse as palavras “South Sea” na presença dele.

Por que estou te contando isso hoje?

Porque esse é um padrão que se repete sem parar ao longo da história dos mercados.

Você pode ser o melhor cirurgião do país. O advogado mais respeitado. O empresário que construiu um império do zero.

Você pode ter um QI altíssimo.

Mas o mercado não liga para o seu diploma.

O erro de Newton não foi de cálculo. Foi de temperamento.

Ele falhou em dois pontos cruciais que eu bato na tecla constantemente aqui:

1. A armadilha da comparação

Newton estava satisfeito com seu lucro até olhar para o prato do vizinho.

Se você investe olhando para o “guru” do Instagram que fez 300% em uma semana, ou para o amigo que “acertou” a cripto da vez, você está pavimentando o caminho para a sua própria ruína.

Investimento não é uma competição de quem chega primeiro. É um jogo de sobrevivência de quem dura mais.

2. A falta de estratégia

Se Newton tivesse sido estratégico até o fim, ele jamais teria apostado a casa no topo de uma parábola.

O antídoto para a euforia não é “ser inteligente”. É ter regras.

É ter a disciplina fria de, inclusive, vender o que subiu demais (rebalancear) e comprar o que ficou para trás, exatamente o oposto do que nossas emoções mandam fazer.

A História de Thomas Guy

Agora, deixe-me apresentar o “Anti-Newton”.

Na mesma época, um livreiro chamado Thomas Guy também investiu na South Sea.

Ele também viu a bolha.

Mas, ao contrário de Newton, Guy foi vendendo suas ações gradativamente à medida que subiam. Ele foi “descascando” a posição.

Quando a bolha estourou, Guy estava líquido, com uma fortuna garantida.

Ele usou esse dinheiro para fundar o Guy’s Hospital em Londres, uma instituição que prospera e salva vidas até hoje.

Guy não era um gênio. Ele apenas tinha controle emocional.

A Lição para o Seu Patrimônio

Caro leitor, o seu maior inimigo não é a inflação, o governo, o Fed ou a taxa Selic.

O seu maior inimigo aparece quando você olha no espelho.

É a voz na sua cabeça que diz “só dessa vez”, “dessa vez é diferente”, ou “eu sou esperto demais para cair nisso”.

Se Isaac Newton, um dos maiores cérebros que a humanidade já produziu, foi humilhado pelo mercado por falta de disciplina emocional, o que te faz pensar que você está imune?

A verdadeira inteligência nos investimentos não é saber prever o futuro.

É saber construir uma carteira robusta o suficiente para que você não precise prever o futuro.

É ter um portfólio diversificado, que sobreviva tanto à euforia quanto ao pânico.

É ter a humildade de Thomas Guy, e não a arrogância momentânea de Newton.

Não tente ser o gênio que vence o mercado.

Seja o investidor disciplinado que sobrevive a ele.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos

PS: Sabe o que é curioso? Muitas vezes, o investidor de alta renda é o mais vulnerável a esse tipo de erro. Por ter tido sucesso em sua carreira original (medicina, engenharia, negócios), ele tende a ter um excesso de confiança ao lidar com o mercado. Ele acha que sua competência técnica em uma área se traduz automaticamente para a bolsa. A história de Newton é a prova cabal de que essa transferência não existe. Cuidado com o ego. Ele custa caro.

1 Comment

  1. Carlos Carvalho 19 de fevereiro de 2026at15:48

    Sensacional mais essa loção em forma de texto com fundo numa história real. Aprendo demais lendo suas histórias e é sempre um grande aprendizado para mim, embora eu já tenha quase 8 anos investindo.

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