Caro leitor,

Você viu a manchete?

Alguns produtos brasileiros passaram a enfrentar uma sobretaxa de até 37,5% para entrar nos Estados Unidos.

Parece o tipo de notícia capaz de derrubar a Bolsa, disparar o dólar e fazer qualquer investidor procurar abrigo.

Mas aconteceu algo curioso.

No dia 22 de julho, quando a primeira nova tarifa entrou em vigor, o Ibovespa subiu 2,44%.

E o dólar caiu para R$ 5,05.

Como isso é possível?

A tarifa não era importante?

O mercado ignorou a notícia?

Não.

A resposta é simples: uma manchete pode estar correta e, ainda assim, contar apenas uma pequena parte da história.

O Número Que Assusta

Os Estados Unidos anunciaram duas novas medidas sobre importações brasileiras.

Uma sobretaxa de 25%.

Outra de 12,5%.

Quando as duas incidem sobre o mesmo produto, chega-se aos 37,5% que dominaram as manchetes.

O problema é que muita gente entende “37,5% sobre tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos”.

E não é isso.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, 16,5% das exportações brasileiras ao mercado americano estão sujeitas às duas medidas.

Somando os produtos atingidos por apenas uma delas, as novas medidas alcançam 23,1% das exportações para os EUA.

Enquanto isso, 52,7% permanecem fora tanto dessas novas tarifas quanto das sobretaxas setoriais. Café, carnes, aeronaves, suco de laranja e a maior parte da celulose estão entre as exceções.

Há outro detalhe.

Em muitos casos, a tarifa de 12,5% substituiu uma cobrança temporária de 10% que já existia.

Ou seja: para esses produtos, a mudança adicional foi de 2,5 pontos percentuais, não de 12,5.

Isso torna a tarifa irrelevante?

De forma alguma.

Para fabricantes de calçados, móveis, máquinas, roupas, madeira e outros itens atingidos, o impacto pode ser enorme.

Mas existe uma distância entre dizer “alguns setores enfrentam um problema sério” e concluir “todo o patrimônio do investidor brasileiro está ameaçado na mesma proporção”.

É nessa distância que as decisões ruins costumam nascer.

Quem Realmente Paga a Conta?

A tarifa é cobrada do importador americano.

Mas isso não significa que ele arcará sozinho com o prejuízo.

Ele pode aceitar uma margem menor.

Pode aumentar o preço para o consumidor.

Pode exigir um desconto do exportador brasileiro.

Ou pode trocar de fornecedor.

O resultado dependerá do poder de negociação de cada empresa, do dólar e da possibilidade de vender para outros mercados.

Duas empresas do mesmo setor podem enfrentar a mesma tarifa e terminar com resultados diferentes.

Uma pode ter fábricas nos Estados Unidos.

Outra pode produzir apenas no Brasil.

Uma pode possuir marca forte e repassar preços.

Outra pode vender um produto facilmente substituível.

A tarifa é a mesma.

O impacto econômico, não.

O Que Isso Tem a Ver Com a Sua Carteira?

Muito.

Mas talvez não pelo motivo que você imagina.

Ao ler uma manchete sobre tarifas, o investidor pode sentir vontade de “vender Brasil”, “comprar dólar” ou trocar os fundos que possui.

Só que uma carteira não tem passaporte.

Ela tem exposições.

Uma empresa brasileira pode obter quase toda a receita no mercado doméstico e ser pouco afetada diretamente.

Um fundo internacional pode carregar ações de importadores americanos pressionados pelas tarifas.

Um banco pode não exportar nada, mas financiar empresas exportadoras.

Um título de renda fixa pode ter sido emitido por uma companhia dependente dos Estados Unidos.

E dois fundos aparentemente diferentes podem possuir exatamente as mesmas empresas atingidas.

Por isso, a pergunta correta não é: “A tarifa é boa ou ruim para o Brasil?”

É: “Por quais caminhos essa tarifa consegue chegar ao meu patrimônio?”

Quanto da receita das empresas da carteira depende do mercado americano?

Elas conseguem reajustar preços?

Seus custos e dívidas estão em reais ou em dólares?

Quais fundos repetem a mesma exposição?

A manchete não responde nenhuma dessas perguntas.

Ela apenas dispara o alarme.

E um alarme serve para você verificar o que está acontecendo.

Não para sair quebrando a janela.

Por Que a Bolsa Subiu?

Porque o mercado não negocia uma notícia isolada.

Ele negocia expectativas.

Naquele dia, a Bolsa também foi impulsionada pela produção da Vale, por um balanço da WEG acima das projeções e pela alta do petróleo.

Além disso, parte do impacto das tarifas já era conhecida.

O mercado não estava dizendo que a tarifa era boa.

Estava dizendo que, naquele dia, todas as informações juntas pesaram mais do que uma única manchete.

O Perigo Não Está na Notícia

Acompanhar notícias faz parte da vida do investidor.

O perigo começa quando uma notícia se transforma automaticamente em uma ordem de compra ou venda.

Principalmente em patrimônios espalhados por diferentes bancos, corretoras, fundos, previdências e investimentos internacionais.

Sem uma visão consolidada, uma decisão que parece proteção pode apenas trocar um risco visível por três riscos escondidos.

Você reduz uma exposição direta às exportações, mas aumenta demais o risco cambial.

Sai de um fundo atingido, mas entra em outro que possui as mesmas empresas.

Busca segurança e compromete a liquidez necessária para um objetivo próximo.

É por isso que o papel de uma consultoria de investimentos CVM não é adivinhar a próxima decisão de Washington.

É separar o barulho do risco real.

É olhar o patrimônio inteiro, identificar exposições diretas e indiretas, testar cenários e verificar se algo realmente mudou em relação aos objetivos do investidor.

A boa análise não pergunta apenas: “O que aconteceu?”

Ela pergunta: “O que isso muda para você?”

A tarifa de 37,5% cabe perfeitamente em uma manchete.

O seu patrimônio, não.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

NA

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos

PS: Uma carteira bem estruturada não é aquela que prevê todas as manchetes. É aquela que não precisa ser reconstruída a cada nova manchete.

PS: Se você quer entender quais riscos realmente existem no seu patrimônio, e quais são apenas ruído, talvez eu possa te ajudar. Clique aqui e veja como.

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