Caro leitor, 

Imagine o cenário:

O telefone toca. É o seu gerente ou assessor.

Ele tem uma voz animada e traz uma “oportunidade exclusiva”.

“Tenho uma debênture incentivada pagando IPCA + 8% ao ano. Ou um CRA isento rendendo CDI + 4%. É renda fixa e não paga imposto!”

Soa como o paraíso, não é?

Uma rentabilidade de bolsa de valores, mas com a suposta tranquilidade da renda fixa.

Mas lembre-se da regra fundamental: se o retorno é alto, o risco está escondido em algum lugar.

E, neste caso, ele atende pelo nome de risco de crédito.

O problema começa no próprio nome: “Renda Fixa”.

No Brasil, fomos condicionados a acreditar que renda fixa é sinônimo de “risco zero” ou de dinheiro garantido. Afinal, passamos décadas acostumados com os gordos juros dos títulos públicos, onde o devedor é o próprio governo.

Mas quando saímos dos títulos públicos e entramos no mundo do crédito privado, o jogo muda de forma drástica.

Nas debêntures, você está emprestando dinheiro para empresas. Já em CRIs e CRAs, a estrutura é diferente, mas o ponto central continua o mesmo: você passa a ficar exposto ao risco de crédito privado, e não mais ao risco soberano.

E empresas quebram. Empresas entram em recuperação judicial. Empresas sofrem fraudes contábeis da noite para o dia.

No mercado, existe um nome para os títulos de crédito privado que pagam taxas muito acima da média. Eles são chamados de High Yield (alto rendimento).

Em português claro, e sem o verniz do mercado financeiro, isso muitas vezes significa: alto risco de calote.

Para te convencer a emprestar dinheiro para um emissor mais frágil, ou para um projeto mais incerto, eles precisam te oferecer uma taxa “gorda”. Mas essa taxa vale o risco?

A matemática perversa do High Yield

Pare e pense na matemática dessa operação.

Quando você compra a ação de uma empresa, por exemplo, o seu risco máximo é perder 100% do capital investido. Mas o seu ganho potencial é teoricamente muito alto. A empresa pode triplicar de tamanho, dominar o mercado e a ação multiplicar por 5 ou 10 vezes. O risco, pelo menos, vem acompanhado de um grande potencial de retorno.

Agora, quando você empresta dinheiro para essa mesma empresa por meio de uma debênture High Yield, a história é outra.

Se você carregar o título até o vencimento, o seu ganho máximo está rigorosamente travado naquele “IPCA + 8%”.

Se a empresa lucrar bilhões, você não ganha um centavo a mais.

Mas se ela entrar em colapso, você pode sofrer perdas muito relevantes. Em casos extremos, pode até perder todo o capital investido. Note que aqui você não tem a proteção do FGC.

E, mesmo se não houver colapso, se precisar vender o papel antes do vencimento, pode enfrentar baixa liquidez ou precisar aceitar um preço ruim no mercado secundário.

Percebe a assimetria?

Você assume um risco elevado para buscar um prêmio limitado.

Arriscar o principal da carteira por 2% ou 3% a mais ao ano, em muitos casos, não é estratégia. É ganância.

É como tentar recolher moedas no trilho do trem.

A função da renda fixa na sua carteira

Renda fixa é a âncora do seu navio. É o zagueiro do seu time.

A função primordial dela na sua carteira não é te deixar mais rico. A função dela é proteger o seu capital contra a ruína, preservar liquidez e te dar estabilidade para não entrar em pânico nas crises.

Se você quer retornos explosivos, se você quer multiplicar o seu capital e aceita correr os riscos necessários para isso, o lugar correto é a renda variável.

É adquirindo exposição à bolsa no Brasil e no exterior. É sendo sócio de bons negócios, onde o potencial de alta é incomparavelmente maior.

Não misture as caixinhas

Isso significa que você nunca deve ter nada investido em crédito privado High Yield?

Não necessariamente.

Às vezes, dependendo do caso, pode fazer sentido acessar esse tipo de risco por meio de um Fundo Imobiliário descontado, por exemplo, com exposição a créditos mais arriscados.

Mas, novamente: nesse caso, é importante reconhecer o que você está fazendo. Você está assumindo risco de crédito por meio de um veículo de renda variável, com cotas oscilando em bolsa. Não misture as caixinhas.

Não exija que a sua renda fixa faça o trabalho da renda variável. Quando você tenta transformar a proteção da sua carteira no motor de rentabilidade, você corre o risco de acabar sem os dois.

Aceite o retorno mais previsível dos bons títulos públicos e dos créditos de alta qualidade.

Durma tranquilo. A verdadeira preservação da sua riqueza depende de saber exatamente onde tomar risco. E onde jogar na retranca.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

NA

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos

PS: O perigo do crédito privado High Yield é que ele quase nunca parece perigoso no começo. Ele vem embrulhado em palavras bonitas: “incentivado”, “isento”, “renda fixa”, “IPCA + 8%”. Mas, quando o problema aparece, normalmente já é tarde demais para sair sem machucar a carteira. Às vezes, o investimento mais inteligente é justamente aquele que parece “sem graça”.

PS: E se você quiser ajuda para separar o que é oportunidade real do que é apenas risco mal disfarçado de rentabilidade, descubra como eu posso te ajudar com seus investimentos neste link aqui.

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