Caro leitor,
Existe uma intuição humana muito forte que funciona perfeitamente na vida real, mas falha miseravelmente no mercado financeiro.
Na sua carreira ou na sua empresa, esforço costuma andar junto com resultado. Se você trabalhar mais horas e for mais ativo, provavelmente vai ganhar mais dinheiro.
Nos investimentos, porém, a lógica muitas vezes é invertida. Com frequência, quanto mais você se mexe, menos você ganha.
Muitos investidores milionários caem nessa armadilha. Eles acreditam que gerir um grande patrimônio exige trocas frequentes de posição, mudanças constantes de rota e atenção permanente à “tendência do mês”. Afinal, parece intuitivo pensar que, se há muito dinheiro em jogo, é preciso fazer alguma coisa o tempo todo.
O mercado financeiro adora esse perfil.
Corretoras, bancos e assessores gostam do investidor hiperativo porque a inércia não gera receita para os distribuidores. O movimento, sim.
O fenômeno do churning
No jargão do mercado, existe um termo para isso: churning.
Ele descreve a prática de estimular o cliente a girar a carteira excessivamente (comprando e vendendo ativos com frequência demais) de forma incompatível com seus objetivos, muitas vezes para gerar mais corretagem, mais spread, mais receita operacional para alguém no meio do caminho.
Sabe aquela ligação sugerindo vender a Ação X, que subiu um pouco, para comprar a Ação Y, que “tem tudo para estourar”? Ou trocar o Fundo Multimercado A pela “nova estrela” da gestora B?
Nem toda troca é errada. Nem toda recomendação de mudança é mal-intencionada. Mas, muitas vezes, o incentivo econômico por trás dessas movimentações está muito menos ligado ao seu patrimônio do que ao faturamento de quem as recomenda.
E, mesmo que você opere sozinho, sem assessor, o perigo continua lá.
A dopamina de clicar no botão “comprar”, a sensação de controle ao realizar um lucro rápido e o prazer psicológico de “fazer alguma coisa” são sedutores. O viés de ação nos faz sentir produtivos, mesmo quando estamos apenas trocando estratégia por ansiedade.
Só que a matemática é cruel com a hiperatividade.
O triturador de rentabilidade
Toda vez que você gira a sua carteira, passa o seu patrimônio por um triturador invisível. E esse triturador tem quatro lâminas afiadas.
1. Taxas e comissões
Dessas nós já falamos. Quando a recomendação vem de alguém cuja remuneração cresce com o número de operações, o incentivo está dado. E todos os custos de distribuição saem do seu bolso.
2. Spread e custos operacionais
Mesmo com “corretagem zero”, a operação não é grátis. Existe spread (a diferença entre o preço de compra e o preço de venda), além de outros custos operacionais. Ao entrar e sair de posições, você paga esse pedágio silencioso. Em patrimônios maiores, esse vazamento vira dinheiro de verdade.
3. Erro de timing
A evidência empírica mostra que acertar o timing de mercado de forma consistente é quase impossível. Ao girar muito, você aumenta as chances de vender cedo demais um ativo vencedor, sair de uma posição boa por impaciência ou entrar numa narrativa ruim no auge do entusiasmo coletivo.
Na teoria, o giro parece estratégia. Na prática, muitas vezes é só ansiedade fantasiada de sofisticação.
4. Imposto de Renda
Este é o assassino silencioso dos juros compostos.
Imagine que você comprou R$ 100.000 em uma ação e, dois anos depois, ela virou R$ 200.000. Parabéns: você dobrou o capital.
Agora, se você mantiver essa posição, os R$ 200.000 continuam trabalhando integralmente para você.
Mas, no momento em que vende para realizar o lucro e “trocar de cavalo”, parte desse ganho deixa de ser seu. Você antecipa imposto, reduz a base que continuará composta e interrompe, ainda que parcialmente, o trabalho do tempo.
Esse ponto é central: não é só o valor do imposto que dói. É o fato de que o dinheiro entregue ao governo hoje deixa de render para você daqui em diante.
Ao longo de 10 ou 20 anos, a diferença entre uma carteira que realiza ganhos o tempo todo e outra que adia a realização sempre que possível pode ser brutal, especialmente em patrimônios grandes.
O tédio é lucrativo
O investidor iniciante busca emoção. O investidor eficiente busca o tédio.
Como dizia Paul Samuelson, investir deveria ser mais parecido com ver a tinta secar ou a grama crescer. Quem busca adrenalina está procurando a coisa errada no lugar errado.
Ou, como disse William Bernstein: “Um portifólio é como uma barra de sabão molhada: quanto mais frequentemente você o manuseia, mais rápido ele desaparece.”
A verdadeira rentabilidade costuma vir de uma combinação muito menos excitante: comprar bons ativos, pagar um preço razoável e deixar o tempo fazer o trabalho pesado.
Isso significa que você nunca deve vender? Não.
Significa apenas que venda deve ser decisão estratégica, não reflexo emocional. Você vende por rebalanceamento, por mudança estrutural de fundamento, por necessidade de liquidez ou porque a tese original mudou de verdade, não por impaciência, medo, ganância ou pela sedução das notícias da semana.
Resista ao canto da sereia das “oportunidades imperdíveis” de curto prazo.
Na maior parte das vezes, o seu patrimônio agradece quando você simplesmente deixa a tinta secar.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
NA
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos
PS2: E se você sente que sua carteira anda sendo movimentada demais (ou se quer descobrir se taxas, impostos, spreads e incentivos escondidos estão corroendo seu patrimônio aos poucos) descubra como eu posso te ajudar neste link aqui.