Caro leitor,

Na semana passada, o mercado respirou.

Saiu notícia de cessar-fogo.

O petróleo cedeu.

As bolsas reagiram bem.

E muita gente concluiu, quase por reflexo:

“Pronto. O pior passou.”

Calma.

Talvez essa seja justamente a conclusão mais perigosa do momento.

Porque guerra econômica não funciona como filme de Hollywood, em que tudo se resolve de uma hora para a outra.

Às vezes, o tiroteio diminui… mas o estrago continua se espalhando.

E foi exatamente isso que aconteceu.

No fim de semana, as negociações entre EUA e Irã fracassaram. Em seguida, Washington anunciou um bloqueio ao tráfego ligado aos portos iranianos.

O resultado foi imediato: o Brent voltou para cima de US$ 100, e o mercado precisou engolir, de novo, a constatação de que o alívio anterior talvez tenha sido mais emocional do que estrutural.

Mas eu diria que o ponto mais importante nem é esse.

O ponto mais importante é que a guerra deixou de ser apenas um choque de manchete e começou a virar contaminação econômica.

Essa diferença importa muito.

Choque de manchete assusta.

Contaminação econômica corrói.

O investidor comum costuma prestar atenção apenas na primeira fase. Vê a explosão, o petróleo subir, a bolsa cair, o dólar estressar e pensa: “Ok, entendi a crise.”

Mas não entendeu.

Porque a parte mais traiçoeira vem depois.

Ela vem quando a manchete esfria, mas os navios continuam parados.

Quando a trégua é anunciada, mas o seguro marítimo continua caro.

Quando o mercado tenta voltar ao normal, mas a logística ainda não voltou.

Quando o ativo para de gritar… mas o custo começa a contaminar silenciosamente o restante da economia.

Hoje, no mercado físico, o aperto continua muito sério. O petróleo para entrega imediata na Europa encostou em níveis próximos de US$ 150 por barril, e Hapag-Lloyd já havia dito, dias atrás, que mesmo com estabilização seriam necessárias de 6 a 8 semanas para a operação voltar ao normal.

Agora, com a nova escalada e com a questão das minas e do seguro marítimo, o quadro ficou mais nebuloso de novo.

Traduzindo para o bom português:

O mercado pode até comemorar um cessar-fogo num pregão. Mas porto, navio, seguradora, refinaria e cadeia de suprimentos não obedecem ao humor do pregão. Eles obedecem ao mundo real.

E o mundo real continua desorganizado.

É por isso que eu acho que o investidor precisa tomar cuidado com um erro muito específico neste momento.

Não estou falando do pânico. O pânico é o erro óbvio.

Estou falando da complacência prematura.

Do investidor que olha para uma trégua frágil, para um ou dois dias de alívio no mercado, e decide que o problema já foi digerido.

Talvez não tenha sido.

Porque petróleo caro não bate só em petroleira.

Ele bate em combustível, frete, fertilizante, indústria, inflação e juros.

E quando esse mecanismo começa a se espalhar, o problema deixa de ser “geopolítico” e volta a ser o velho problema de sempre: preço, custo, margem, atividade econômica e política monetária.

O próprio Federal Reserve já sinalizou esse risco. As atas de março mostraram preocupação com a possibilidade de a inflação permanecer elevada por mais tempo por causa do petróleo, e dirigentes do Fed têm destacado que uma guerra prolongada no Oriente Médio aumenta a incerteza e pode adiar cortes de juros.

Percebe a implicação?

A guerra do Irã não afeta apenas “os ativos ligados ao conflito”.

Ela bagunça o relógio do dinheiro no mundo inteiro.

E isso nos atinge também aqui no Brasil.

É verdade que o Brasil tem uma vantagem relativa importante: somos exportadores líquidos de petróleo. Isso ajuda a amortecer parte do choque. O próprio Ministério da Fazenda destacou esse ponto no mês passado ao manter a projeção de crescimento para 2026.

Mas isso não nos torna imunes.

Porque petróleo caro segue pressionando combustíveis e logística.

E porque existe um canal que muita gente continua subestimando: fertilizantes.

O governo brasileiro também chamou atenção para esse ponto, e a Reuters mostrou ainda no início de março que a escalada do conflito ameaçava tanto o abastecimento de fertilizantes quanto fluxos importantes do agronegócio brasileiro, inclusive porque o Irã é um grande exportador de ureia e, também, um comprador importante de produtos nossos.

Ou seja: o Brasil talvez não esteja na linha de frente da guerra.

Mas certamente não está fora do raio de impacto dela.

No fundo, o que mudou desde o meu último e-mail sobre esse tema foi o seguinte:

No começo, o risco era o investidor surtar.

Agora, o risco é o investidor se anestesiar cedo demais.

E os dois erros custam caro.

O primeiro faz a pessoa vender no fundo do medo.

O segundo faz a pessoa interpretar um alívio tático como se fosse normalização definitiva.

Nenhum dos dois é sinal de maturidade.

A leitura madura, para mim, é outra.

É entender que uma crise pode sair da fase do susto e entrar na fase do desgaste. E que a fase do desgaste costuma ser mais silenciosa, mais confusa e mais traiçoeira.

Porque nela o mercado já não parece em pânico. Mas a inflação continua ali.

Os bancos centrais continuam cautelosos.

A logística continua machucada.

E o preço da energia continua cobrando pedágio do resto da economia.

Em resumo: a pergunta mais útil agora não é “a guerra acabou?”

A pergunta mais útil é:

“Mesmo que os tiros diminuam, o dano econômico já foi embora?”

Talvez não.

E é por isso que eu deixo aqui uma frase simples, mas importante:

Não confunda trégua com cura.

No mercado, esse tipo de confusão costuma sair caro.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

NA

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos

PS: Em momentos assim, a manchete costuma sequestrar a atenção do investidor. Mas patrimônio não é gerido por manchete. É gerido por estrutura, função e disciplina.

PS2: E se você quiser ajuda para avaliar se a sua carteira está realmente preparada para atravessar não apenas o susto inicial de uma crise, mas também a ressaca econômica que vem depois, descubra como eu posso te ajudar neste link.

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