Caro leitor,

Imagine a seguinte cena em um jantar de gala em Nova York, em 2007.

De um lado da mesa, Warren Buffett, o Oráculo de Omaha. Um homem que dirige seu próprio carro, mora na mesma casa há décadas e prega o investimento simples, seguro e racional para a esmagadora maioria dos investidores.

Do outro lado, a nata de Wall Street. Gestores de Hedge Funds (fundos multimercado sofisticados), armados com algoritmos de última geração, PhDs em matemática e acesso a informações que meros mortais nem sonham em ter.

O clima estava tenso, mas cordial.

Buffett lançou um desafio que soava, na época, como uma insanidade ou arrogância pura.

Ele colocou US$ 1 milhão na mesa (destinados à caridade) apostando que um fundo de índice simples, passivo e “chato”, o S&P 500, superaria, ao longo de uma década, uma seleção dos melhores e mais exclusivos Hedge Funds do mundo.

Ted Seides, da Protégé Partners, aceitou o desafio.

Ele não escolheu um fundo qualquer. Ele montou um “Fundo dos Fundos”, selecionando a dedo 5 fundos que, por sua vez, investiam em mais de 100 outros Hedge Funds de elite.

Era a batalha final: Simplicidade vs. Complexidade.

O investidor comum vs. A “caixa preta” sofisticada.

Você talvez já tenha ouvido falar que Buffett ganhou a aposta.

Mas o que a maioria das manchetes não te contou, e é aqui que mora a lição vital para o seu patrimônio, é como ele ganhou. E, principalmente, o detalhe sórdido que destruiu o retorno dos “gênios” do mercado.

Pois é.

Se você tem um patrimônio relevante ou está construindo um, precisa entender que a indústria financeira ama vender complexidade.

Ela vende a ideia de que, para ganhar dinheiro de verdade, você precisa de estratégias que parecem manuais da NASA. Precisa de acesso exclusivo. Precisa pagar taxas altíssimas porque “qualidade custa caro”.

Será mesmo?

Vamos aos números frios do resultado, apurados em 2017.

O fundo de índice escolhido por Buffett rendeu 125,8%.

A seleção sofisticada de Hedge Funds rendeu 36,3%.

Não foi uma vitória. Foi um massacre.

Estamos falando de uma diferença de quase 90 pontos percentuais deixados na mesa.

Se fosse o seu dinheiro, digamos R$ 1 milhão investidos nessa brincadeira, seguir a estratégia “inteligente” teria te custado centenas de milhares não realizados.

O que aconteceu? Os gestores eram burros? As estratégias eram ruins?

Longe disso. Os gestores eram brilhantes. E as estratégias eram ótimas.

Mas eles carregavam uma âncora pesadíssima, a mesma que talvez esteja ancorada no seu portfólio agora sem você perceber: as taxas em cascata.

No mundo dos Hedge Funds americanos, a regra padrão é “2 e 20”. Ou seja, 2% de taxa de administração e 20% de taxa de performance sobre o lucro.

Só que, na aposta de Ted Seides, havia camadas de taxas. Os fundos cobravam, e o “Fundo dos Fundos” cobrava em cima deles.

O resultado?

Para o investidor empatar com o mercado, os gestores precisavam gerar um retorno bruto astronômico, quase milagroso, apenas para pagar a própria conta do restaurante antes de servir o cliente.

Buffett resumiu isso com uma frase cirúrgica: “Quando trilhões de dólares são geridos por Wall Street cobrando taxas altas, geralmente são os gestores que colhem lucros desproporcionais, não os clientes.”

Parece familiar?

Aqui no Brasil, vejo isso acontecer todos os dias nos portfólios que analiso.

Investidores comprando produtos de ‘alta qualidade’, que às vezes até são realmente bons, mas cujos resultados acabam devorados por excesso de taxas, de modo que deixam de valer à pena.

Mas espere.

Eu prometi um detalhe que poucos conhecem sobre essa história, algo que mostra que até na “simplicidade” existe espaço para a sofisticação real (aquela que gera valor, não a que gera custos).

A aposta tinha um “efeito colateral” interessante.

O dinheiro do prêmio (os tais US$ 1 milhão) não ficou parado. Originalmente, Buffett e Seides compraram um título do Tesouro Americano que venceria em 2017.

Só que veio a crise de 2008.

Com os juros no chão, o preço de mercado daquele título disparou, a ponto de valer a pena vendê-lo.

Então em 2012, Buffett fez uma proposta e, num acordo de cavalheiros, eles venderam o título e compraram ações da Berkshire Hathaway (a empresa do próprio Buffett).

E o que aconteceu depois? As ações da Berkshire dispararam.

O prêmio final doado para a caridade não foi de US$1 milhão. Foi de US$2,22 milhões.

A lição aqui é dupla e serve como um tapa na cara da inércia.

Primeiro: Excesso de complexidade é inimigo do retorno.

Estratégias mais simples, quantitativas, com custos baixos e foco no longo prazo, tendem a bater estratégias mais sofisticadas com custos maiores.   

Segundo: Simplicidade não é estupidez.

Buffett foi passivo na aposta (S&P 500), mas foi ativo na gestão do risco do colateral. Quando o cenário macroeconômico mudou (juros 0% a 0,25%), ele adaptou a garantia da aposta.

Isso é gestão de verdade.

Não é girar a carteira loucamente pagando corretagem e taxas. É ter a clareza de mudar a rota apenas quando necessário.

O mercado financeiro tenta te tratar como uma criança deslumbrada, oferecendo o brinquedo mais brilhante, mais complexo e mais caro.

Dizem que você precisa de produtos ultra estruturados, de algoritmos mirabolantes.

Mas a verdade é que uma alocação de ativos sólida, diversificada e barata tende a funcionar muito melhor na maior parte dos casos.

Agora, olhe para a sua carteira hoje.

Quantas camadas de taxas existem entre o seu dinheiro e o ativo real?

Buffett apostou no tempo, na paciência e na matemática dos custos baixos. E ganhou de lavada.

Talvez seja hora de você fazer a mesma aposta com o seu patrimônio.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos

PS: Um detalhe cruel sobre a aposta: no primeiro ano (2008), o mercado desabou. O S&P 500 caiu 37%. Os Hedge Funds caíram “apenas” 23%. Naquele momento, Ted Seides parecia um gênio protetor de capital. É fácil ser seduzido pela proteção no curto prazo e esquecer que, no longo prazo, o custo dessa proteção (as taxas) drena sua capacidade de recuperação. O filme importa mais que a foto.

PS: Se você sente que seu portfólio pode estar cheio de “taxas ocultas” ou complexidade desnecessária que está drenando seu retorno, eu posso te ajudar a fazer essa radiografia. Descubra como ter uma consultoria alinhada aos seus interesses neste link.

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