Caro leitor,

Imagine um mercado onde um único homem é responsável por uma parcela absurda do volume diário.

Não estou falando de um grande fundo institucional. Nem de um algoritmo de High Frequency Trading que domina Wall Street hoje.

Estou falando de uma pessoa física.

Um homem que, vestindo ternos impecáveis e fumando charutos caros, olhou para o mercado financeiro brasileiro e decidiu que ele não apenas participaria do jogo.

Ele seria o dono da bola, do campo e do juiz.

Seu nome era Naji Robert Nahas.

E se você acha que as crises de liquidez modernas, os colapsos de criptoativos ou as bolhas de crédito privado são novidades tecnológicas de 2026, preciso te levar de volta para uma sexta-feira fatídica: 9 de junho de 1989.

O dia em que a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (BVRJ) morreu.

Sim, ela morreu naquele dia, embora o enterro oficial tenha levado anos para acontecer.

Mas por que estou desenterrando esse esqueleto de quase 40 anos atrás para você, um investidor sofisticado em pleno 2026?

Porque a mecânica que permitiu a Nahas quebrar o sistema financeiro da época ainda existe, camuflada em produtos que talvez estejam sendo oferecidos para você agora mesmo.

Vamos dissecar o cadáver.

A Alavancagem Infinita e o Dinheiro de Fumaça

Para entender o crash de 1989, você precisa esquecer a tecnologia de hoje e focar na regra do jogo.

Naquela época, vivíamos a insanidade da hiperinflação. O dinheiro derretia na mão. O overnight pagava juros estratosféricos.

A Bolsa do Rio, desesperada para roubar o protagonismo da Bovespa (São Paulo), afrouxou as regras de controle de risco. Ela permitiu que especuladores operassem volumes gigantescos no mercado de Opções e a Termo, exigindo garantias (margens) irrisórias.

O sistema era uma falha geológica pronta para causar um terremoto.

Funcionava assim:

Nahas comprava ações (principalmente Vale e Petrobras) e opções de compra. Para pagar essas operações e manter a máquina girando, ele tomava empréstimos bancários de curtíssimo prazo a juros altíssimos.

Ele usava o crédito dos bancos para inflar a bolsa, e usava a valorização da bolsa para garantir mais crédito nos bancos.

Percebe a “mágica”?

Era uma pirâmide de alavancagem construída sobre a premissa de que as ações continuariam subindo.

E para garantir que elas subissem?

Ele operava contra si mesmo. As famosas operações “Zé-com-Zé”.

Nahas vendia para laranjas ou corretores parceiros e comprava de volta por um preço maior, criando uma liquidez artificial e inflando as cotações.

Ele não tentava prever o mercado. Ele fabricava a tendência.

Os bancos adoravam. Cobravam juros altíssimos nesses empréstimos de curto prazo. A Bolsa do Rio adorava. O volume explodia.

Todos estavam felizes no banquete.

Até a conta chegar.

O Xeque-Mate e o Cheque Sem Fundos

O castelo de cartas não caiu por gravidade. Ele foi empurrado.

Eduardo da Rocha Azevedo, então presidente da Bovespa (a rival de São Paulo), percebeu o risco sistêmico que aquilo representava. Ele viu que a BVRJ estava sendo permissiva demais para ganhar market share.

Rocha Azevedo pressionou os bancos. Convenceu o mercado a aumentar as margens de garantia. Ele avisou: “Vai explodir”.

E em 9 de junho de 1989, a torneira fechou.

Os bancos, liderados pelo Planibanc, cortaram o crédito de Nahas.

Sem dinheiro novo para rolar a dívida do dia anterior, a alavancagem virou pó. Nahas emitiu um cheque de NCz$ 39 milhões (Cruzados Novos).

O cheque voltou.

Foi o dominó que faltava: os prejuízos no mercado foram estimados em cerca de US$ 500 milhões na época.

A Bolsa do Rio quebrou. Corretoras tradicionais, como a Corretora Capitânea, de Elmo Camões (filho do então presidente do Banco Central), faliram.

O mercado carioca virou uma cidade fantasma. A liquidez migrou massivamente para São Paulo (Bovespa), consolidando o caminho para o que hoje conhecemos como B3.

A Lição para 2026: O Risco de Contraparte Invisível

Agora, voltamos para o seu portfólio hoje, em 2026.

Você não opera como o Nahas. Você não faz “Zé-com-Zé”. Você é prudente.

Mas a grande lição de 1989 não é sobre a ganância de um homem. É sobre a fragilidade das garantias.

Em 1989, o mercado quebrou porque o sistema permitiu que se operasse sem ter o dinheiro, assumindo que a liquidez estaria lá amanhã.

Hoje, o risco mudou de nome, mas a estrutura é idêntica.

Nós chamamos isso de Risco de Contraparte Invisível.

Pense nos produtos “inovadores” que surgiram nos últimos anos.

Fundos exclusivos que marcam ativos ilíquidos a mercado com preços teóricos. Tokens de recebíveis (ou de qualquer outra coisa) que prometem revolução, mas operam em exchanges com regulação cinzenta.

Ou até mesmo certas estruturas de crédito privado que prometem “retorno de renda variável com segurança de renda fixa”.

Quando você compra um ativo desses, você precisa se perguntar:

Quem está do outro lado?

Se todo mundo quiser sair ao mesmo tempo, quem garante a liquidez?

Em 1989, os investidores achavam que a Bolsa do Rio era a garantidora final. Descobriram, da pior forma, que a Bolsa era apenas um balcão. Se a contraparte (Nahas) não pagasse, e a corretora quebrasse, o sistema travava.

Hoje, em 2026, com a velocidade dos algoritmos e a interconectividade global, o risco de contraparte muitas vezes está escondido em três camadas de derivativos ou em uma custódia “offshore” que ninguém sabe exatamente onde fica.

A lição brutal de Nahas é: Liquidez fabricada não é liquidez real.

Se um ativo sobe sem parar, com volatilidade anormalmente baixa e volume que parece “perfeito demais”, desconfie.

Você pode estar diante de um mercado onde a liquidez só existe enquanto o “player principal” (ou o algoritmo formador de mercado) não precisar sacar.

O Que Você Deve Fazer?

Não estou dizendo para colocar o dinheiro embaixo do colchão.

Estou dizendo para você olhar além da tela do seu home broker ou do aplicativo do banco.

  1. Cuidado com a “Inovação” Regulatória: A Bolsa do Rio afrouxou as exigências de garantias (margens) para atrair mais volume que a concorrente. Às vezes, facilidades operacionais são criadas para contornar regras de prudência, não para beneficiar você.

  2. Investigue a Contraparte: Em produtos estruturados (CRIs, CRAs, FIDCs, Notas Estruturadas), o emissor é tão ou mais importante que a taxa de retorno.

Naji Nahas costuma dizer em entrevistas: “Eu não quebrei a bolsa. Foi a bolsa que me quebrou ao mudar a regra do jogo no meio da partida.”

Ele tem um ponto.

No mercado financeiro, as regras mudam quando a crise aperta.

E quando a música para, seja em 1989 ou em 2026, a única coisa que importa é se você tem uma cadeira sólida para sentar ou se estava apoiado em um castelo de cartas.

Revise suas garantias.

Questione a liquidez mágica.

E lembre-se: se você não sabe quem é o “pato” na mesa de poker, ou quem está garantindo a solvência da mesa… cuidado.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos

PS: Sabe o que aconteceu com Naji Nahas na justiça? No fim ele foi absolvido. A defesa explorou brechas na lei da época e a falta de tipificação clara para aquelas condutas específicas. A manipulação de mercado não era crime penal claro, e o cheque foi considerado um desacordo comercial, pois os bancos haviam rompido o pacto de financiamento. Isso te lembra algo sobre a velocidade da lei versus a velocidade do mercado? Lembre-se: o mercado ainda é uma selva em algumas áreas.

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