Caro leitor,

Estamos em dezembro de 2025. O ano está acabando.

É aquela época em que começamos a fazer o balanço do que passou. Olhamos para a rentabilidade da carteira, comparamos com o CDI, talvez com o IPCA, e decidimos se foi um ano de vitória ou de empate técnico.

Mas existe uma linha nesse balanço que a maioria dos investidores ignora completamente.

Não porque querem ignorar. Mas porque, até pouco tempo atrás, ela era invisível.

Estou falando do Custo da “Gratuidade”.

Durante anos, o mercado financeiro brasileiro operou sob uma falsa promessa: a de que assessoria de investimentos era “de graça”.

Você abria a conta na corretora, o assessor entrava em contato, montava uma carteira cheia de siglas bonitas e falava como se você não estivesse pagando nada por aquele serviço VIP.

No entanto, em finanças, se você não vê o preço na etiqueta, o produto é você.

Ou melhor: o produto é a comissão escondida dentro do ativo que empurraram para a sua carteira.

Com a vigência plena da Resolução CVM 179, essa caixa-preta foi (teoricamente) aberta. 

As instituições que atuam como intermediárias (revendedoras) do mercado de valores mobiliários foram obrigadas a mostrar os custos de distribuição*.

Mas sejamos francos: você já parou para olhar esses documentos?

Ou continua clicando em “Li e Aceito” sem ver que parte do seu patrimônio está sendo drenada antes mesmo de começar a render?

A Sangria Que Você Não Vê

Só para você ter uma ideia, fiz um levantamento do que o mercado tem praticado. Aqui está uma estimativa do que pode estar custando a “amizade” do seu assessor.

1.  A Armadilha do COE

Sabe aquele Certificado de Operações Estruturadas que prometeram proteger seu capital?

A taxa fica em torno de 6% do valor investido. 

Você coloca R$ 100 mil, mas o valor justo do seu investimento cai instantaneamente para cerca de R$ 94 mil na marcação a mercado.

A diferença? Virou receita imediata da instituição. Se você precisar sair antes, esse prejuízo se realiza. 

2.  O Spread da Renda Fixa (CRI, CRA, Debêntures):

Aqui mora o perigo silencioso. O famoso spread. No mercado secundário, a corretora compra o papel por um preço e te vende mais caro.

Esse custo oculto é de até 3%, podendo chegar a até 6% em papéis estruturados ou de menor liquidez.

Se o papel vence em dois anos, esse custo pode comer quase toda a sua vantagem real sobre a inflação.

3.  Fundos de Investimento:

O clássico rebate. Estima-se que 30% a 50% da taxa de administração que você paga não vai para o gestor que escolhe as ações. Vai para o distribuidor que te indicou o fundo, de forma recorrente, enquanto você mantiver o dinheiro lá.

Em um fundo que cobra 2% de taxa de administração ao ano, por exemplo, cerca de 0,6% a 1,0% ao ano sai do seu bolso direto para o assessor.

Percebe o conflito?

O assessor te indicou o Fundo A porque ele é melhor para o seu futuro, ou porque ele paga 50% de rebate, enquanto o Fundo B (que é melhor) não paga nada?

A CVM 179 veio para te dar a arma contra isso. Mas uma arma guardada na gaveta não serve de nada.

Como Encontrar o “Holerite” do Seu Assessor

A transparência agora é lei. Mas as corretoras não vão colocar isso em um outdoor piscante. 

Se você quer assumir as rédeas do seu dinheiro em 2026, pare tudo agora e faça o seguinte:

Passo 1: O Extrato Trimestral de Remuneração

Entre no site ou app da sua corretora. Não olhe para o saldo. Procure a seção “Meus Documentos”, “Relatórios”, “Extratos”.

O documento geralmente chama-se ‘Extrato Trimestral de Remuneração’, ‘Informe de Transparência’ ou ‘Extrato de Custos’. Procure por termos assim.

Na XP por exemplo, no app, está em Serviços > Mostrar mais > Extrato de Remuneração lá no final.

Lá estará, preto no branco, quanto saiu da sua conta direto para a receita da instituição através de comissões e spreads.

Passo 2: A Checagem Prévia

Vai investir hoje? Antes de confirmar a operação, procure um aviso ou link, geralmente discreto, chamado “Transparência na Distribuição” ou “Remuneração do Distribuidor”.

A CVM exige que isso esteja visível antes de você confirmar a operação.

Se for um COE, uma Debênture ou um Fundo de Investimento, o valor estimado ou o percentual da comissão deve aparecer lá.

O Que Fazer Com Essa Informação?

Ao descobrir esses números, você pode sentir raiva. É normal.

Ninguém gosta de saber que pagou o equivalente a um carro em comissões ao longo de uma década sem saber.

Mas transforme essa raiva em inteligência. Use esses dados para questionar.

Na próxima vez que receber uma ligação com uma “oportunidade imperdível”, pergunte:

“Qual é o spread dessa operação e quanto disso volta para o escritório?”

O desconforto do outro lado da linha será a resposta mais honesta que você terá.

O mercado financeiro não é lugar para ingenuidade. É lugar para alocação racional de capital. E custo é parte fundamental da equação de retorno.

Não deixe que 2026 seja mais um ano onde você paga a conta do restaurante sem conferir os itens, deixando gorjetas milionárias para quem apenas te serviu um prato frio.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos

PS: É fundamental que você saiba que a Resolução CVM 179 tem um limite: ela se aplica apenas a valores mobiliários. Isso significa que produtos que não são valores mobiliários, como produtos bancários clássicos (ex: CDBs, LCIs, LCAs, Poupança), ficaram de fora dessa obrigatoriedade de transparência. A consequência disso é perigosa. A corretora não é obrigada a revelar o spread (o lucro) nessas operações. 

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