Caro leitor,

Você gosta de montanha-russa?

Provavelmente não quando se trata do seu dinheiro.

O ser humano tem uma aversão natural à perda. Ver o saldo da conta oscilar, ver aquele número vermelho piscando na tela do home broker… isso gera ansiedade.

Gera desconforto.

E o mercado financeiro, astuto como sempre, sabe disso.

Ele sabe que você pagaria caro por uma sensação de paz. Por um investimento que parecesse uma linha reta ascendente, sem solavancos, sem sustos.

É justamente aí que nasceu uma das modas que já invadiu as carteiras de centenas de milhares de investidores brasileiros, muitas vezes empurrada com força pelos assessores de investimentos.

Estou falando dos Fundos Cetipados.

Talvez você já tenha ouvido esse nome. Talvez até tenha alguns na sua carteira e nem saiba (a maior parte dos investidores não sabe que tem fundos cetipados na carteira antes de tentar vendê-los).

A promessa é sedutora: 

“Invista em imóveis (ou no agro, ou em infraestrutura) sem a volatilidade da Bolsa. O rendimento é acima da média e a cota sobe em linha reta”.

Parece o melhor dos dois mundos, não é?

Um passe de mágica que remove o risco e deixa só um retorno atraente.

Mas quando a esmola é demais, o santo desconfia. 

E, no mercado financeiro, quando a volatilidade some “magicamente”, geralmente o risco está se escondendo em outro lugar.

Vamos acender a luz e ver o que realmente está acontecendo nesse quarto escuro.

O Que é o tal do “Cetipado”?

Para entender o perigo, você precisa entender o mecanismo.

A maioria dos Fundos Imobiliários (FIIs) ou Fiagros que você conhece são listados na B3 e negociados no “pregão”. 

É como uma praça pública: compradores e vendedores gritam seus preços o tempo todo e fecham negócio a cada segundo.

Se acontece uma crise, o preço cai na hora. É doloroso? Sim. Mas é honesto. E, principalmente, é líquido. Se você quiser sair, você aperta um botão e vende.

Já os Fundos Cetipados vivem em um mundo diferente.

Eles são negociados no mercado de balcão da B3 (antiga Cetip).

Imagine que, em vez da praça pública, você está negociando em uma sala fechada, privada. Não tem um painel eletrônico piscando preços a cada segundo.

E na falta desse painel eletrônico fica parecendo para o investidor (os assessores e as instituições também tendem a dar, digamos, uma “ajudinha” para proteger e reforçar essa impressão) que a oscilação de preços na verdade não existe para esse ativo.

Mas é aqui que mora a primeira grande ilusão.

O Termômetro Congelado

Imagine que você está com febre. Você se sente mal, suando frio.

Mas você tem um termômetro especial. Não importa a sua temperatura real, ele sempre mostra 36,5°C.

Você olha para o termômetro e fica tranquilo. “Ufa, não estou doente”.

Mas a infecção continua lá, machucando seu corpo por dentro.

Os Fundos Cetipados funcionam, muitas vezes, como esse termômetro congelado.

Como eles não são negociados abertamente na Bolsa, a cota não varia todo dia. O investidor olha o extrato e vê aquela linha estável, bonita. Dorme tranquilo.

Mas a realidade econômica dos ativos dentro do fundo (os prédios, as dívidas do agro, os projetos de energia) pode ter mudado drasticamente.

O valor real pode ter despencado.

Mas, na sua tela, tudo parece calmo.

Até o dia em que não parece mais.

A Armadilha da Liquidez: Hotel California

A música dos Eagles dizia:

“You can check-out any time you like, but you can never leave” (Você pode fazer o checkout quando quiser, mas nunca pode sair).

Essa é uma ótima definição para o risco de liquidez dos Cetipados.

Na Bolsa, a liquidez é (geralmente) abundante.

No mercado de balcão, a liquidez depende, muitas vezes, do esforço da corretora ou do distribuidor em encontrar outro comprador para você.

Normalmente vender as suas cotas já vai ser mais difícil, com grandes chances de você precisar aceitar um preço bem abaixo do valor na tela.

Mas e se, além disso, o mercado azedar?

E se houver mais um evento de crédito, mais um calote, mais uma crise no setor?

Nos fundos listados em Bolsa, o preço cai 10%, 20% no mesmo dia. O investidor se desespera, mas se ele PRECISAR do dinheiro, ele vende. Assume o prejuízo e segue a vida.

No fundo Cetipado, quando a crise bate, a porta de saída pode simplesmente desaparecer.

Você quer vender, mas não tem comprador.

Ou, se tem, a corretora te diz: “Olha, o valor da cota na tela é R$100, mas nós conseguimos vender por R$50”. 

De repente, a “estabilidade” vira fumaça. 

Você descobre que a volatilidade estava escondida de você, mas sempre existiu, e de uma forma ainda mais drástica por conta da questão da falta de liquidez. 

E os retornos acima da média que você achou que estava recebendo? De repente você percebe que na verdade era você quem estava pagando por eles. 

Por Que Seu Assessor Ama Isso?

Se é mais arriscado (em termos de liquidez) e menos transparente, por que tantos assessores e corretoras empurram esses produtos como se fossem a oitava maravilha do mundo?

Siga o dinheiro.

Muitas vezes, a estrutura de comissionamento desses produtos é bem mais generosa para quem vende do que a de um fundo listado comum.

No caso dos fundos cetipados há muito espaço para os assessores ganharem gordas comissões tanto na compra como na venda desses ativos.

Além disso, é um produto fácil de vender.

É muito mais fácil convencer um cliente conservador a comprar algo que “não oscila” do que explicar que a volatilidade da Bolsa é o preço que pagamos pela liquidez e pelo potencial de retorno real.

O argumento de venda é perfeito: “Doutor, sai dessa volatilidade da Bolsa, vem pra cá onde é tranquilo”.

Mas a tranquilidade artificial pode custar muito caro.

Conclusão: Escolha a Verdade, Mesmo Que Doa

Caro leitor, não me entenda mal.

Existem bons ativos dentro de alguns fundos Cetipados? Sim. Existem gestores sérios? Sim.

Mas a estrutura do produto carrega uma assimetria que joga contra você, o investidor pessoa física.

Você abre mão da liquidez.

Você abre mão da transparência de preços.

Você abre mão do controle de saída.

E o que recebe em troca?

Uma ilusão de ótica. Uma sensação psicológica de conforto.

Não vale a pena.

Eu prefiro mil vezes ver meu patrimônio oscilar na tela (sabendo que aquele é o preço real e que eu posso transformar aquilo em dinheiro na conta em D+2) do que ter um número fictício e estável que eu não consigo resgatar quando mais preciso.

A volatilidade não é sua inimiga. Ela é o sinal vital do mercado.

Tentar suprimi-la artificialmente é como pintar por cima de uma rachadura na parede. A casa fica bonita por um tempo, mas a estrutura continua comprometida.

Não troque a sua liberdade e a sua liquidez por uma falsa sensação de segurança.

O mercado financeiro não perdoa quem prefere o conforto à verdade.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos

PS: Se você tem fundos cetipados na carteira e ficou preocupado, não entre em pânico. O primeiro passo é entender o que você tem. Verifique a liquidez, verifique os ativos. Mas, para novos aportes, pense mil vezes se vale a pena entrar em uma festa com gente desconhecida num galpão escuro onde a porta de saída é estreita e, às vezes, fica trancada.

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