Caro leitor,
Quando o Banco Central sobe os juros, muita gente imagina um mecanismo quase automático.
Os juros sobem.
A demanda esfria.
A inflação cede.
Na teoria, parece simples.
Na prática brasileira… nem sempre.
Para quem presta atenção, a impressão que o mercado dá é, frequentemente, de que a inflação no Brasil tem uma “memória turbinada”.
Uma memória que faz o passado pesar muito mais sobre o presente.
Uma memória que torna a inflação mais teimosa.
Mais difícil de derrubar.
E mais cara de combater.
É exatamente isso que o estudo “Structural persistence of Brazil’s inflation rate in times of fiscal bubbles”, de André de Mattos Marques, investigou.
E a conclusão central é importante:
Quando a dívida pública entra em uma trajetória explosiva, a inflação brasileira tende a ficar bem mais inercial.
Traduzindo para o português claro:
Nesses períodos, a inflação de ontem passa a empurrar com muito mais força a inflação de hoje.
Antes de avançar, vale decodificar o economês.
O estudo usa uma curva de Phillips híbrida.
Ideia simples.
Ela tenta medir quanto da inflação atual vem de três forças principais:
A inflação passada,
As expectativas sobre a inflação futura,
E o nível de atividade da economia.
Em outras palavras: ela tenta descobrir se os preços estão sendo mais guiados pelo retrovisor, pelo para-brisa ou pelo ritmo do motor.
O achado mais relevante do trabalho é que, no Brasil, o retrovisor pesa muito.
E pesa ainda mais quando o ambiente fiscal piora.
Aqui entra outra expressão importante: “bolha fiscal”.
Isso não significa, necessariamente, que o autor esteja dizendo que haverá calote.
Nem que o país esteja prestes a quebrar amanhã.
No contexto do estudo, “bolha” é um termo técnico para descrever períodos em que a dívida/PIB passa a seguir um comportamento explosivo, isto é, uma trajetória que se deteriora de forma anormal e persistente.
O autor analisa dados mensais de janeiro de 2002 a novembro de 2023, usando IPCA, expectativas de inflação para 12 meses à frente, uma medida de hiato da atividade e medidas da dívida pública. E faz um cuidado metodológico importante: não assume de antemão quando esses períodos problemáticos começam ou terminam; deixa os próprios dados identificarem esses episódios.
Agora vem a parte que realmente importa para nós.
Em abordagens tradicionais, o peso da inflação passada sobre a inflação corrente costuma aparecer entre 0,24 e 0,77.
Já neste estudo, quando se leva em conta o regime de bolha da dívida, esse coeficiente sobe para algo próximo de 0,99 no modelo preferido do autor.
Pense no significado disso.
É quase como se a inflação passasse a andar com uma mochila cheia de si mesma.
O passado cola no presente.
A inflação deixa de ser apenas um problema de hoje.
Ela vira um eco.
E eco, como você sabe, não desaparece com um único grito.
Isso ajuda a explicar por que certos surtos inflacionários parecem durar mais do que o esperado.
E porque, em alguns momentos, mesmo uma política monetária mais dura encontra mais dificuldade para produzir o efeito desejado.
O estudo sugere justamente isso:
Em condições fiscais piores, aumenta a parcela de agentes que formam preços olhando mais para a inflação passada do que para a inflação esperada à frente.
Em linguagem simples: as pessoas e empresas passam a confiar menos no futuro prometido e mais no passado vivido.
Se ontem foi inflacionário, elas carregam isso para hoje na formação de preços, salários e contratos.
É uma mudança de comportamento.
E essa mudança importa muito.
Porque um sistema em que a inflação esperada futura pesa pouco e a inflação passada pesa muito é um sistema em que o Banco Central trabalha mais.
E colhe menos.
O estudo argumenta que, nessas fases, a política monetária perde potência e o custo para desinflacionar sobe.
Em termos simples:
Para trazer a inflação de volta, pode ser necessário apertar mais.
Por mais tempo.
Com mais dor na atividade.
Esse é um ponto especialmente interessante porque boa parte do debate público sobre inflação costuma girar quase inteiramente em torno do Banco Central.
A discussão vira:
“O BC subiu ou não subiu juros o suficiente?”
“A comunicação foi boa ou ruim?”
“O mercado acreditou ou não acreditou?”
Tudo isso importa.
Mas o estudo faz um lembrete incômodo:
O fiscal também entra no jogo.
Ele pode alterar a própria dinâmica da inflação.
Essa talvez seja a grande mensagem aqui.
A inflação não é apenas um fenômeno monetário no sentido estreito.
Nem apenas psicológico.
Nem apenas resultado de choques isolados.
Em certos contextos, ela também reage ao ambiente fiscal de uma forma estrutural, afetando a credibilidade e aumentando a inércia.
O trabalho ainda encontra sinais importantes no pano de fundo macroeconômico brasileiro: uma quebra estrutural nas expectativas de inflação em outubro de 2010 e outra no hiato do produto em outubro de 2014. Além disso, os indicadores de dívida mudam fortemente de trajetória poucos meses antes de 2015, e os episódios mais longos de comportamento explosivo aparecem justamente no período de maior deterioração fiscal da década passada.
Repare na implicação.
Se a política fiscal piora o ambiente e aumenta a memória da inflação, combater a inflação vira algo mais parecido com puxar um carro com o freio de mão parcialmente acionado.
Você até anda.
Mas com muito mais esforço.
E esse ponto é valioso para o investidor porque ajuda a interpretar o mundo real com menos ingenuidade.
Quando a inflação se mostra persistente, não basta olhar apenas para a decisão de juros da próxima reunião.
É preciso observar o terreno sobre o qual esses juros estão tentando agir.
Porque a mesma dose de remédio pode funcionar muito bem em um corpo saudável…
e funcionar muito pior em um corpo já inflamado.
No fim das contas, a força deste estudo não está em oferecer uma previsão mágica.
Ela está em evidenciar que, no Brasil, a inflação pode se tornar estruturalmente mais difícil de domar quando o quadro fiscal se deteriora.
Não porque “o mercado é malvado”.
Não porque “as expectativas são irracionais”.
Mas porque os próprios mecanismos de formação de preços mudam.
E quando o mecanismo muda, a batalha muda junto.
Para o investidor, essa é uma lição valiosa.
Mas no sentido de entender melhor o tabuleiro.
Inflação persistente não é só um número alto.
É um regime mais hostil.
Um ambiente em que credibilidade vale mais, tempo vale mais e erro de diagnóstico custa mais caro.
Quem enxerga isso para além da manchete entende melhor por que, às vezes, a inflação brasileira parece menos um fogo de palha… e mais uma brasa escondida debaixo das cinzas.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
NA
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 17 Anos
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