Caro leitor,

No meu último e-mail, eu disse que o carro tinha começado a andar, mas que a pista ainda estava escorregadia.

Hoje eu quero te mostrar uma cena que ajuda a entender melhor essa pista.

Porque, antes mesmo de Fed e Copom terminarem de passar sua mensagem, o Tesouro Nacional já tinha feito um movimento enorme no mercado, uma prova prática de que o primeiro corte da Selic não aconteceu num cenário de tranquilidade

Foram quase R$ 50 bilhões em intervenções ao longo da semana passada.

E, quando o investidor lê uma manchete dessas, a reação costuma ser imediata:

“O governo entrou em pânico?”

Ou então:

“O Tesouro decidiu derrubar as taxas dos títulos na marra?”

Nenhuma das duas leituras é a melhor.

O que aconteceu foi mais simples de entender do que parece.

E, ao mesmo tempo, mais importante.

Vamos por partes.

O Tesouro Nacional emite títulos públicos. Depois que esses títulos são emitidos, eles continuam sendo negociados no mercado entre bancos, fundos, seguradoras, investidores e outras instituições.

Ou seja: o Tesouro vende primeiro, mas depois esses papéis passam a circular.

É como se ele colocasse os carros na estrada, mas depois os carros continuassem trocando de mãos entre os próprios motoristas.

Normalmente, isso funciona bem.

Quem quer vender encontra comprador.

Quem quer comprar encontra vendedor.

Os preços se ajustam.

As taxas se movem.

E o mercado segue funcionando.

Mas, na semana passada, começou a acontecer um problema.

Muita gente quis vender certos títulos ao mesmo tempo, especialmente prefixados e papéis indexados à inflação.

E, naturalmente, quando a oferta aumenta demais em relação à demanda, o mercado começa a ficar torto.

Os preços caem rápido demais.

As taxas sobem rápido demais.

E o movimento deixa de ser apenas uma “reavaliação normal” para virar uma desorganização.

Foi aí que o Tesouro entrou.

Como?

Comprando títulos de volta.

Essa é a forma mais simples de entender a intervenção.

O Tesouro olhou para o mercado e disse, na prática:

“Se está faltando demanda, eu entro comprando uma parte desses papéis para devolver liquidez ao sistema.”

Liquidez é uma palavra que muita gente escuta, mas pouca gente traduz.

Liquidez, aqui, significa basicamente a facilidade de transformar um ativo em dinheiro sem precisar aceitar um preço muito pior no desespero.

Quando a liquidez some, vender fica difícil.

E quando vender fica difícil, o preço despenca mais do que deveria.

Então o objetivo da intervenção não foi “mandar” nas taxas.

Foi impedir que a negociação dos títulos públicos começasse a funcionar mal demais.

Essa diferença é crucial.

Porque, se você olhar só a manchete, parece que o Tesouro tentou forçar uma queda das taxas longas.

Mas o ponto principal não era esse.

O ponto principal era restaurar o funcionamento do mercado.

Pense numa feira.

Se todo mundo resolve vender tomate ao mesmo tempo e quase ninguém quer comprar, o preço cai.

Até aí, normal.

Mas imagine que, de repente, a feira inteira trava, ninguém sabe mais qual é o preço justo, um monte de gente precisa vender logo, e os compradores somem quase por completo.

Nesse momento, o problema já não é só “o tomate está mais barato”.

O problema é que o mercado deixou de funcionar direito.

Foi mais ou menos isso.

O Tesouro entrou como um comprador de emergência para impedir que esse travamento piorasse.

“Mas por que isso aconteceu justo agora?”

Porque o cenário global piorou de novo.

A guerra no Oriente Médio elevou a tensão no petróleo.

O Brent passou de US$ 100.

E, quando o petróleo sobe forte, o mercado pensa imediatamente em inflação.

Se a inflação pode ficar mais pressionada, os juros podem cair menos do que se imaginava.

E, quando o mercado começa a rever suas apostas para juros, os títulos mais sensíveis a isso sofrem bastante.

Especialmente os prefixados.

Aqui entra uma relação importante que todo investidor deveria guardar:

Em renda fixa, quando a taxa exigida sobe, o preço do título cai.

E quando o preço cai rápido demais, muita carteira sente.

Fundos sentem.

Instituições sentem.

Investidores sentem.

A marcação a mercado começa a machucar.

E, em certos casos, isso pode forçar ainda mais vendas, criando um círculo vicioso.

Ou seja: queda de preço gera desconforto, desconforto gera mais venda, mais venda gera mais queda.

É justamente esse tipo de espiral que o Tesouro tentou evitar.

Por isso eu diria o seguinte:

A intervenção não foi um remédio para tornar o cenário bonito.

Foi um freio para impedir que o cenário ficasse pior do que precisava.

Na segunda, na terça e na quarta-feira da semana passada, o Tesouro fez leilões extraordinários e recomprou algo perto de R$ 49 bilhões em títulos, com recompra líquida ao redor de R$ 47 bilhões.

É muito dinheiro.

E esse número, por si só, já diz bastante.

Ele mostra que o Tesouro entendeu que o estresse não era pequeno.

Mas cuidado para não tirar a conclusão errada.

O fato de o Tesouro ter entrado forte não significa que ele tenha “resolvido” o problema.

Não resolveu.

Ele ajudou a consertar o encanamento.

Não mudou a chuva.

O encanamento, aqui, é o funcionamento do mercado.

A chuva é o cenário macro: petróleo, guerra, inflação, Fed, Copom, câmbio, expectativas.

O Tesouro consegue ajudar no encanamento.

Mas não controla a chuva.

Essa talvez seja a forma mais simples de resumir tudo.

Tem ainda um detalhe importante.

O Tesouro só conseguiu fazer isso porque tinha caixa para fazer.

Ele vem mantendo um colchão de liquidez alto, justamente para momentos de tensão.

Então não foi uma ação improvisada no sentido de “vamos tentar qualquer coisa”.

Foi o uso de uma ferramenta que existe exatamente para momentos de desorganização.

Só que a existência da ferramenta não deveria tranquilizar demais o investidor.

Pelo contrário.

A pergunta mais interessante não é apenas “como o Tesouro interveio?”

A pergunta mais interessante é:

“O que o Tesouro viu para achar necessário intervir desse tamanho?”

E a resposta, na minha leitura, é clara:

Ele viu um mercado começando a ficar sensível demais, desorganizado demais e vulnerável demais a um choque que, se fosse deixado sozinho, poderia contaminar ainda mais a curva de taxas dos títulos públicos.

No meu e-mail anterior, eu disse que o carro tinha começado a andar, mas que a pista seguia molhada.

Agora dá para completar a imagem.

Na semana passada, o Tesouro não entrou na pista para acelerar o carro.

Entrou para evitar que ele rodasse na curva.

E isso diz muito sobre o momento que estamos vivendo.

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

NA

Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos

PS: O mais importante aqui não é decorar o número de quase R$ 50 bilhões. O mais importante é entender a mensagem por trás dele: quando o Tesouro entra comprando títulos desse tamanho, ele não está necessariamente dizendo “as taxas dos títulos vão cair”. Muitas vezes, ele está apenas dizendo: “o mercado está funcionando pior do que deveria”.

PS: e se você quiser ajuda para interpretar movimentos como esse sem cair na armadilha da manchete apressada, do susto ou da reação exagerada, descubra como eu posso te ajudar neste link aqui.

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