Caro leitor,

Eu amo o mercado.

Ele é uma mina de oportunidades.

Ele é complexo e dinâmico.

Ele é fascinante.

E…

Ele também é insano.

Às vezes um pouco. Às vezes completamente.

E como poderia ser de outro jeito? Afinal, ele é feito de pessoas!

E pessoas não são famosas por serem racionais.

A história de hoje ilustra isso muito bem.

Aconteceu o seguinte:

Em 1634 a Holanda havia acabado de passar por GRANDES mudanças.

O país tinha acabado de conseguir sua independência da Espanha e, além disso, em pouco tempo havia se tornado o país mais rico da Europa…

Graças ao comércio, a primeira bolsa de valores da história e, principalmente, a famosa Companhia das Índias Ocidentais.

Assim, nesse contexto de mudança e prosperidade uma nova elite de comerciantes e investidores havia se formado no país.

No entanto, eles tinham um problema:

Como fazer para demonstrar status na sociedade?

Acontece que a Holanda era um país rigidamente calvinista, o que significava que, para os holandeses…

Muitos dos hábitos e lazeres de outras partes da Europa eram vistos como indecentes, vulgares e até imorais.

Os holandeses tinham que, por exemplo, seguir rígidos códigos de vestimenta que acabavam proibindo uma pessoa de destacar das demais.

Já as artes e formas de entretenimento eram restringidas ou até proibidas.

O que, além de prejudicar a vida cultural, também dificultava a patronagem (outra fonte de status em outros lugares da Europa).

Além disso o consumo de bebidas alcoólicas, dança, jogos de cartas e mais um monte de formas de diversão também eram proibidas ou restringidas, então a vida social também sofria.

Foi nesse contexto então que as tulipas foram introduzidas na Holanda, vindas do oriente.

E logo elas viraram uma FEBRE entre as classes mais ricas, pois elas eram o hobby perfeito para uma classe com dinheiro demais para gastar.

Pois a tulipa era uma flor exótica, bela e rara.

E como todas as flores eram consideradas obras de Deus, então o cultivo de tulipas não ia contra a moralidade calvinista.

Assim, a alta classe caiu de cabeça na nova moda e a demanda por tulipas começou a crescer.

Principalmente pelos tipos mais raros de tulipas, que se tornaram tão valiosas que mesmo um minúsculo jardim delas era um sinal tremendo de status.

(Na verdade eram os bulbos das tulipas que eram normalmente comerciados, já que as flores em si eram frágeis demais para ficarem passando de mão em mão).

E claro: junto com a alta da demanda veio a alta dos preços.

E com a alta dos preços logo as pessoas começaram a se interessar por tulipas não como hobby, mas como uma forma de investimento.

O resultado é que a especulação no mercado de tulipas começou a crescer.

E a coisa tomou uma guinada brusca quando começaram a se comercializar não as tulipas ou seus bulbos…

Mas contratos que permitiam ao proprietário comprar bulbos que ainda não haviam sido cultivados.

Ou seja: contratos futuros de tulipas.

Isso mudou completamente o jogo.

Pois antes a correria por tulipas só acontecia na época do ano em que era possível colhê-las (ou os bulbos).

Mas com a introdução de contratos futuros, agora a especulação começou a correr sem freios.

Assim logo os preços dispararam até níveis absurdos.

Note: há muitos mitos e exageros em relação a esse episódio da história, então as tulipas na verdade NÃO chegaram a valer tanto quanto dizem algumas fontes.

Mas ainda assim, bulbos de um tipo especialmente raro de tulipa (a tulipa semper augustus) chegaram a ser comumente vendidos pelo equivalente a R$60.000,00 em moeda atual.

Sendo que há alguns relatos de bulbos que foram vendidos pelo equivalente a R$275.000,00.

No entanto, é claro, a festa não ia durar para sempre.

Toda bolha explode quando o equilíbrio entre oferta e procura muda.

E foi justamente isso o que aconteceu em 3 de fevereiro de 1636, quando um bulbo de tulipa não encontrou um comprador em um leilão.

E esse foi o início de uma queda brusca de preços das tulipas.

Uma queda que levaria a uma crise econômica sem precedentes na Holanda e à falência de inúmeros comerciantes, muito dos quais cometeram suicídio…

Só que não.

Como eu falei, os relatos sobre essa que foi a primeira bolha da história foram muito exagerados ao longo do tempo.

O fato é que a Holanda mal sentiu a explosão da bolha.

Afinal, ela era a nação mais rica da Europa e a verdade é que relativamente pouca gente estava envolvida na “Mania das Tulipas”, como ela ficou conhecida.

Mas, dito isso, realmente muita gente perdeu uma nota preta na brincadeira. E teve sim muita gente que foi à falência.

Ou seja:

Só porque o episódio não foi tão catastrófico quanto algumas pessoas pensam, isso não tira a insanidade da coisa.

Afinal, o que você diria se um amigo seu chegasse para você e dissesse que está sem casa para morar porque aplicou tudo em tulipas?

Pois muitos holandeses tiveram essa exata experiência entre 1636 e 1637.

Esse então é um bom episódio histórico para a gente se lembrar de uma lição importante:

O mercado é feito de pessoas. E a maior parte das pessoas não é nem um pouco racional.

Elas são movidas por instinto, intuição e, principalmente, pelo que todas as outras pessoas estão fazendo (mesmo que estejam todos indo na direção de um precipício).

Agora, o que você, investidor, deve fazer com essa lição?

Depende… ela é ao mesmo tempo um alerta e uma oportunidade.

Isto é: por um lado é um alerta para que você sempre suspeite quando um ativo estiver se valorizando.

Às vezes a “oportunidade de ouro” do momento não passa de ouro de tolo.

No entanto, a partir do momento em que você entende que os mercados são movidos por emoção, você pode usar esse conhecimento para vencê-los.

Como exatamente?

É disso que eu vou falar no artigo de amanhã, então não perca!

Atenciosamente,

Hugo Teixeira

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