Caro leitor,
Lembra do e-mail que enviei semana passada?
Foi no dia 20 de janeiro, com o título “Caso Ambipar e Braskem: Quando o Guarda-Costas Te Usa de Escudo”.
Ali, falei sobre como estruturas complexas (os famigerados COEs) foram vendidas como uma oportunidade imperdível, com “Capital Protegido”, mas acabaram triturando o patrimônio de investidores quando o risco real bateu à porta.
Eu falei também que o mercado tem memória curta.
Que a mesma história estava fadada a se repetir.
Pois é. Ao que tudo indica já estava se repetindo enquanto eu finalizava aquele e-mail.
Uma nova bomba detonou no colo do investidor brasileiro neste janeiro de 2026.
Desta vez, o nome do protagonista é Fictor Invest.
E o “Investimento Dos Sonhos” não foi um COE, mas algo que soa ainda mais inofensivo e técnico: a SCP (Sociedade em Conta de Participação).
Então pare tudo e preste muita atenção.
Porque o roteiro do filme de terror mudou de cenário, mas o monstro é o mesmo.
O Caso: Quando a Música Para
Para quem não acompanhou as manchetes financeiras (ou para quem está tentando entender por que o dinheiro não caiu na conta), aqui vai o resumo:
A holding Fictor Invest, que ganhou notoriedade nacional em novembro de 2025 ao tentar comprar o Banco Master numa operação bilionária, suspendeu os pagamentos de dividendos e resgates agora em janeiro de 2026.
A justificativa oficial? “Problemas momentâneos de liquidez” causados por uma suposta “pressão midiática”.
A empresa promete regularizar tudo até 12 de fevereiro.
Mas, ao mesmo tempo, está sendo questionada pela CVM por suposta oferta irregular de investimentos (processo nº 19957.000116/2026-15), após muitas reclamações e uma denúncia da Abai (Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos).
As questões levantadas?
Em primeiro lugar, temos promessas de retorno, digamos, ‘otimistas’: 2% a 3% ao mês.
Isso mesmo.
2% a 3%.
Ao mês.
E mais: era “garantido”!
…
Uau, vou encerrar a minha consultoria!
Se existe uma opção tão boa no mercado, nem faz sentido pensar em estratégia.
Simplesmente invista tudo nesse milagre financeiro e aguarde a sua Ferrari, seu jato particular e o seu Castelo com privadas de ouro!
Que bom que a vida é fácil, né? 🙄
…
Em segundo lugar, se aponta uma “política agressiva de distribuição dos contratos”.
Mais especificamente:
As SCPs da Fictor pagavam comissões (rebates) que faziam os olhos de qualquer assessor de investimentos brilharem.
Estamos falando de taxas que podiam chegar a 2% ou mais sobre o valor captado, pagas na cabeça.
Enquanto um Tesouro Selic não paga quase nada de comissão para o distribuidor, o “Investimento Dos Sonhos” pagava o bônus do ano.
O conflito de interesses é óbvio.
E, por fim, outro ponto levantado é ‘uma preocupante ausência de transparência e de registro’.
Veja bem: no mercado sério, existe uma figura chamada “custodiante”. É como um segurança independente que garante que o dinheiro está onde dizem que está.
Existe auditoria. Existe fiscalização.
Mas no caso das SCPs da Fictor esse não parece ser o caso.
O dinheiro, por sinal, saía da sua conta e ia direto para o caixa da empresa (a tal sócia ostensiva).
Sem escalas. Sem ninguém vigiando.
Você não tinha um extrato auditado por terceiros.
Você tinha, basicamente, um PIX feito na base da confiança cega, sem a menor garantia de que aquele recurso estava realmente indo para o agronegócio ou apenas servindo para pagar a conta de quem entrou ontem.
A Armadilha da SCP: Você Não É Credor, Você É Sócio
O cerne deste problema está na estrutura jurídica usada.
Assessores de investimento, motivados por comissões agressivas, venderam cotas dessas SCPs comparando-as a CDBs ou LCIs, mas com “uma pimentinha a mais” de retorno.
Diziam: “É como uma renda fixa, paga 2% ao mês, garantido pelo sucesso do agronegócio ou da energia”.
Só que SCP não é Renda Fixa.
Na verdade, nem era para ser investimento vendido no mercado financeiro.
Tradicionalmente, as SCPs são empregadas em empreendimentos menores, reunindo um número pequeno de participantes, geralmente amigos e familiares.
No entanto, a Fictor parece ter abusado dessa estrutura privada, usando-a para fazer uma captação em massa, o que na verdade a classificaria como um CIC (contrato de investimento coletivo).
E porque a Fictor iria querer fugir da classificação de CIC?
Porque CICs são regulados e fiscalizados pela CVM.
Ou seja: se fosse oficialmente CIC teria alguém vigiado.
Nada suspeito, né?
De qualquer forma, numa Sociedade em Conta de Participação, existem duas figuras:
- O Sócio Ostensivo (a Fictor), que gerencia o negócio e aparece publicamente.
- O Sócio Oculto (você, o investidor), que entra com o capital.
Percebeu a palavra-chave? Sócio.
Ao investir numa SCP, você não está emprestando dinheiro para a empresa com a garantia de receber de volta com juros (como num CDB). Você está virando parceiro do risco do negócio.
Se o negócio vai mal, se a liquidez seca, ou se a gestão erra a mão, você não tem a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
Você não tem a supervisão direta da CVM.
Você é o último da fila a receber, se sobrar algo.
A Falácia da “Culpa da Mídia”
A empresa alega que a atual crise de liquidez ocorre porque notícias negativas fizeram muitos investidores pedirem o resgate ao mesmo tempo. A clássica “corrida bancária”.
Mas pense comigo com frieza:
Se um modelo de negócios depende da entrada de novos investidores ou da manutenção dos atuais para pagar quem está saindo, ou se não possui reservas reais para suportar um momento de estresse…
Que tipo de solidez existia ali, para começar?
Ativos sólidos, empresas robustas e investimentos bem estruturados aguentam manchetes de jornal.
Castelos de cartas, não.
O Que Aprender (Para Não Ser a Próxima Vítima)
Caro leitor, meu objetivo aqui não é chutar cachorro morto, nem dizer “eu avisei”.
É te dar as ferramentas para que você nunca caia nesse conto do vigário, que muda de nome, mas nunca de essência.
- Risco e Retorno Andam de Mãos Dadas:
Com estratégias inteligentes é sim possível otimizar a relação retorno/risco, mas não se engane: potencial de retorno e risco sempre andam de mãos juntas.
Se um investimento pode te render 2% a 3% ao mês num mundo onde a taxa livre de risco paga 1%, então o risco extra é GRANDE.
E se alguém te prometer esse tipo de retorno de forma fixa ou garantida, isso claramente é um alerta vermelho.
- Entenda o Veículo Jurídico:
Não compre “rentabilidade”. Compre o produto.
Pergunte: “Isso é um título de dívida ou uma sociedade?”.
Se for SCP, saiba que você é sócio oculto. Se a empresa quebrar, você senta na calçada e chora junto com o dono (ou depois dele).
- Fuja do “Shadow Banking”:
Produtos não regulados pela CVM ou fora do ambiente bancário tradicional exigem uma due diligence (investigação) que 99% dos investidores pessoa física não têm capacidade de fazer. Se não tem selo da CVM, o sinal amarelo deve virar vermelho imediatamente.
O caso Ambipar/Braskem nos ensinou sobre as armadilhas contratuais dos bancos (os COEs).
O caso Fictor nos ensina sobre os perigos do mercado paralelo de capitais (as SCPs).
Em ambos os casos, a ganância por taxas um pouco maiores, combinada com a confiança cega em vendedores comissionados, gerou perdas irreparáveis.
A tal da “Renda Fixa Turbinada” não existe. O que existe é Renda Variável, Private Equity ou Crédito Privado High Yield.
Chamar isso de “segurança” não é erro técnico. É má fé.
Proteja-se. Questione. E leia os contratos.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos
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