Caro leitor,
Imagine que você contrata o guarda-costas mais caro do mundo.
Ele é enorme, treinado e jura que vai te proteger de qualquer ameaça.
Você se sente invencível andando na rua.
Mas, de repente, começa um tiroteio intenso.
O que o seu guarda-costas faz?
Em vez de pular na sua frente, ele agarra você pelo colarinho e te usa como escudo humano para se proteger.
Por quê?
Porque no contrato dele havia uma cláusula dizendo:
‘Em caso de ameaça superior ao calibre .45, o contratante servirá de barreira física para preservar a integridade do agente de segurança’.
O agente sai vivo. Você vira a estatística.
Parece piada?
Pois saiba que foi isso o que aconteceu em outubro de 2025 com milhares de investidores brasileiros no “O Massacre dos COEs da Ambipar e Braskem”.
Então, se você tem um “Capital Protegido” na sua carteira hoje, eu sugiro que você pare tudo e leia este e-mail até o fim.
A Ilusão do Capital Protegido
Durante 2024 e o início de 2025, os “assessores de investimento” (leia-se: vendedores de produtos bancários) da XP e BTG inundaram o mercado com uma oferta ‘irresistível’.
Eram os famosos COEs (Certificados de Operações Estruturadas) atrelados a dívidas de grandes empresas, como a Ambipar e Braskem.
O discurso de venda era sedutor:
“Doutor, o senhor ganha 2% acima do CDI se a empresa for bem. E se for mal? Não se preocupe! Seu capital é 100% protegido. O pior cenário é receber seu dinheiro de volta.”
Parece o melhor dos dois mundos, não é? Ganhar na alta e não perder na baixa.
Mas, como eu sempre digo: no mercado financeiro, não existe almoço grátis. Alguém sempre paga a conta.
Agora, normalmente a conta que um investidor paga por investir num COE é simplesmente um (grande) custo de oportunidade, porque COEs na verdade são PÉSSIMOS quando você os analisa de perto.
No entanto, nesse caso o custo para o investidor foi bem maior que qualquer custo de oportunidade.
Pois quando o risco de crédito dessas empresas piorou e os papéis começaram a derreter no mercado secundário, uma armadilha silenciosa foi ativada.
Não era o mercado agindo sozinho. Era o Gatilho de Evento de Crédito.
A maioria dos investidores não sabia, mas aquele COE não era um investimento na empresa. Era um contrato onde o investidor servia, na prática, como a seguradora do banco.
O banco estruturador inseriu cláusulas de “liquidação antecipada” baseadas em eventos de crédito ou volatilidade extrema.
Dessa forma, se o risco ficasse alto demais, a operação era encerrada para proteger o banco.
E foi isso o que aconteceu.
Resultado?
O “Capital Protegido” virou pó.
Investidores que tinham COEs da Braskem amargaram prejuízos de até 73% do dia para a noite.
Já para quem aplicou nos produtos ligados à Ambipar foi ainda pior: prejuízos de até 93%.
Ou seja: houve Investidores que colocaram R$1 milhão, foram dormir tranquilos e acordaram com R$70 mil.
Os guarda-costas usaram os clientes como escudo humano.
O Conflito de Interesse em Sua Forma Mais Cruel
Agora, você deve estar se perguntando: “Hugo, por que meu assessor me recomendou isso se havia esse risco?”
A resposta é a mesma que venho reiterando há anos: Incentivos perversos.
Esses COEs eram produtos de alto risco, mas foram empurrados massivamente para clientes de perfil “Moderado” e “Conservador”.
Por que um assessor faria isso? Maldade?
Raramente. É algo mais simples e pragmático: Comissão (Rebate).
Esses COEs estruturados pagavam comissões gordas, muitas vezes 3%, 4% ou 5% do valor investido, pagos na cabeça (no ato da aplicação).
O assessor batia a meta do mês. O banco limpava o risco do balanço dele, repassando a batata quente para você. E você ficava com a promessa de proteção.
O conflito de interesse aqui não é teórico. Ele custou o patrimônio de vida de muitas famílias em 2025.
O banco usou o seu dinheiro para fazer hedge (proteção) da própria carteira dele. Você não era o cliente; você era a contraparte.
A “Letra Miúda” Que Destrói Patrimônios
O problema técnico (e aqui peço sua atenção redobrada) é o descasamento entre a narrativa comercial e a realidade contratual.
O termo “Capital Protegido” ou “Valor Nominal na Vencimento” só é válido se o produto for levado até o vencimento E se, e somente se, os gatilhos de barreira não forem acionados no meio do caminho.
Ao estruturar esses produtos, os bancos embutem derivativos que funcionam como opções de venda. Se o ativo subjacente (a dívida da Ambipar, neste caso) cai abaixo de um certo nível, a estrutura se desmonta.
Eles chamam isso de “evento de crédito”.
Eu chamo de Expropriação Legalizada por Falta de Informação.
Os portais de notícias e os especialistas de mercado, muitos deles patrocinados pelas mesmas instituições que criam esses produtos, raramente explicam o “Gatilho de Saída”.
Eles falam do potencial de retorno. Mostram gráficos bonitos de “backtesting” (muitas vezes feitos com dados insuficientes).
Mas esquecem de avisar que, se a coisa complicar, o banco vai sacrificar o seu investimento para proteger o próprio dinheiro.
O Que Você Precisa Fazer Agora
Caro leitor, hoje é dia 20 de janeiro de 2026. O desastre da Ambipar/XP/BTG ainda está fresco, mas o mercado tem memória curta.
Neste exato momento, novas estruturas estão sendo criadas para substituir as antigas. Novos nomes bonitos. Novas promessas de “renda fixa turbinada”.
A lição que fica é dura, mas necessária:
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Desconfie da Complexidade: Se você precisa de um manual de 50 páginas e um diploma de engenharia financeira para entender como seu dinheiro rende, é provável que você seja a “pato” da mesa.
- Ignore o Rótulo “Protegido”: Em produtos estruturados, a proteção quase sempre tem um asterisco. Descubra qual é o evento que anula essa proteção.
- Pergunte “Quanto você ganha?”: Se o seu assessor gasta 30 minutos te vendendo um COE e 2 minutos falando de Tesouro Direto, siga o dinheiro. A resposta está na comissão.
O caso Ambipar foi um massacre, sim. Mas foi também um alerta ensurdecedor.
Você vai continuar confiando cegamente no “gerente gente boa” ou no assessor que tem metas agressivas para bater?
Ou vai assumir o controle, entender os riscos reais e parar de financiar o bônus da mesa de operações dos bancos com o seu suado patrimônio?
Lembre-se: no mercado financeiro, airbag que não funciona na batida tem outro nome.
Chama-se armadilha.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos
PS: Se você possui produtos estruturados na carteira e não faz a menor ideia se eles têm esses “gatilhos” escondidos, ou se quer blindar seu patrimônio de verdade contra esses conflitos de interesse, eu posso te ajudar a fazer uma auditoria completa. Descubra como clicando neste link aqui!