Quando os Livros Sobre a Bolsa de Valores Enganam… Parte 2

…leia Quando os Livros Sobre a Bolsa de Valores Enganam: Parte 1.

Terceiro Padrão: Epa, cadê o seu “qualquer coisa importante aqui”?

Maior culpado: How I Made 2,000,000 in the Stock Market do Nicolas Darvas

Esse é simples, os livros que caem nessa categoria são aqueles que simplesmente “esquecem” de mencionar algumas coisas, como position sizing, entradas, saídas, quanta margem foi usada, psicologia e qualquer outra coisa. E infelizmente o tão divertido How I Made 2,000,000 in the Stock Market é um desses livros. É até chato falar mal dele mas sim, apesar de poder até ser meio difícil de perceber na primeira leitura, ele tem um problema.

Em nenhum momento durante toda a história, o Nicolas Darvas fala alguma coisa de seu position sizing, basicamente ele deixa o leitor deduzindo, isso é se ele quiser saber, o que provavelmente não será o caso, já que descobrir como ele fez 2kk parece ser mais importante. De qualquer forma, Darvas não parece ter um método mecânico que diz quanto ele deve comprar. O bom é que ele pelo menos não comprava as ações de uma vez mas considerando que todos os trades grandes dele deram certo de uma vez, quantos % do capital total será que ele teria perdido se fosse stopado? Esse é o problema, ele não fala nada disso no livro todo. Um iniciante lendo esse livro pela primeira vez provavelmente não irá perceber isso, eu sei porque dá primeira vez que eu li, também não percebi nada.

Where the f*ck?

Mas tem alguma coisa faltando...

Precisamos considerar que apesar do position-sizing dele parecer medido por um “chutômetro”, ele sempre entrou aos poucos, como o Jesse Livermore fazia, ou seja, mesmo sendo stopado várias vezes, ele provavelmente não iria ter perdas muito grandes pois as compras iniciais eram apenas testes, ou “probes”. Tal método não é nada recomendado pois novamente, sem limites, você pode acabar ficando confiante demais, nesse caso o risco seria o de entrar muito rápido no trade ou ter uma exposição muito grande. Só que Darvas tinha o bom senso de não ficar 100% comprado em uma ação só, ele ficava com duas ou três ações e, apesar de eu não gostar muito (ou recomendar) a idéia de ficar exposto totalmente em duas ações, ficar em três pode ser muito legal dependendo do risco.

Nicolas tinha bom senso mas não uma técnica de position sizing, não que tenha dito pelo menos. Se ele foi capaz de lucrar com esse bom senso, bom pra ele, porém é uma jogada muito arriscada colocar elementos arbitrários em algo tão importante, é muito melhor e mais seguro aplicar o seu bom senso na escolha e configuração da técnica de position sizing em vez de ficar contando com a possibilidade de você escolher sempre muito bem quanto de cada coisa irá comprar.

Quarto Padrão: Meu, do que diabos você está falando!?

Maiores culpados: Os Axiomas de Zurique de Max Gunther e Investindo em Opções de Maurício Hissa (Bastter)

Meu plano era tão bom no papel...

Meu plano era tão bom no papel...

Toda hora aparece um livro com um conteúdo muito legal e útil, pelo menos no começo, você vai curtindo até chegar em um ponto estranho, você pára, analisa, e pensa: “O que essa merda está fazendo aqui!?”. O Axiomas de Zurique define muito bem esse padrão, o autor oferece idéias valiosas como “Quando o barco começar a afundar, não reze. Abandone-o” ou “O comportamento do ser humano não é previsível. Desconfie de quem afirmar que conhece uma nesga que seja do futuro”. Mas aí ele estraga tudo com idéias totalmente nada a ver como “Venda sempre cedo demais” ou “Se não deu certo da primeira vez, esqueça”. WTF!!! Venda cedo demais? Sério? Então agora é: “Cut your losses short and let your profits ride, but just a little?” e sobre segunda, tente dizer isso para trend-followers!!! Esses são apenas alguns exemplos de idéias totalmente contra-produtivas se forem aplicadas à especulação nos mercados, mas que podem ser levadas à sério porque algumas idéias anteriores são boas, já que vieram da mesma fonte.

Para entender melhor o que eu irei falar do livro do Bastter, recomendo a leitura do ótimo When Genius Failed: The Rise and Fall of Long-Term Capital Management do Roger Lowestein, esse livro conta a história de um fundo hedge dirigido por caras formados no MIT e ganhadores do prêmio Nobel que foi pro saco na época da crise asiática em 1998, postarei uma análise dele nos próximos dias. Agora continuando.

Investindo em Opções de Maurício Hissa (Basster), o que tem de errado nesse livro? Simples, o autor explica no capítulo 8 o modelo Black-Scholes, criado pelos ganhadores do prêmio Nobel de economia Fisher Black e Myron Scholes. Esse modelo de precificação de opções funciona muito bem em condições normais porém tem uma falha vital, ele se baseia na idéia de que os mercados são eficientes, ou seja, em condições “anormais” como em grandes crashes com enorme volatilidade o modelo pode não funcionar, e quando isso acontece os efeitos podem ser catastróficos. E é muito importante saber disso, só que o autor, que chama o modelo de “brilhante”, não menciona isso no capítulo!

Outra coisa que ele deve saber mas não quis dizer é: uma boa parte da estrutura do Long-Term Capital Management foi baseada no modelo Black-Scholes e adivinha quem era um dos diretores do fundo? O próprio Myron Scholes!! Ele trabalhava junto com o Robert Merton no LTCM quando os dois receberam o prêmio Nobel de Economia em 1997. Um ano antes do fundo explodir! Lembrando que o Black não ganhou nada pois ele tinha morrido em 1995 e eles não dão prêmios Nobel post-mortem, o que é uma sacanagem ao meu ver. Mas voltando ao assunto, o que custava pro Basster ter explicado a falha? Só precisava de um parágrafo! Tudo bem que ele não iria falar que o próprio Scholes participou de um projeto que perdeu bilhões confiando no modelo, mas porque não nos avisar sobre seus perigos? Faria sentido pensar que um cara que fica pelo livro todo repetindo incessantemente para operar pequeno fosse nos alertar dos problemas do modelo Black-Scholes, mas ele não fala nada. Foda né?

Concluindo!

gato-salvador

Tome muito cuidado com o que você lê em livros ou em qualquer outro lugar, você pode ler um texto que diz que não se deve acreditar em palpites mas nesse mesmo texto, recebe os conselhos mais retardados ever. Muito cuidado com informações ocultas, como a falta de esclarecimento sobre a técnica de position sizing do Darvas e os “detalhes” ignorados sobre o modelo Black-Scholes do livro do Maurício Hissa. Costume também procurar fontes diferentes, duvide muito, não precisa se tornar um idiota paranóico fascinado com teorias da conspiração mas seja um “healthy-skeptic”.

Não aceite como fato nem aquilo que você lê aqui no SenhorMercado.com.br sem antes pensar no que foi escrito, vai que eu esqueci de mencionar alguma coisa? Essa é a forma racional e inteligente de aprender. Ponha em prática. Só de ler este post você já começará a prestar mais atenção no que entra em sua cabeça e assim, poderá separar mais facilmente os diamentes do lixo e ficar mais ligado e resistente à informações ruins. Se você não pensava assim antes, comece a aproveitar agora que você pensa.

E você? Já teve problemas por acreditar em alguma coisa besta que leu num livro? Diga como foi!



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14 Comentários Quando os Livros Sobre a Bolsa de Valores Enganam… Parte 2

  1. Flavio

    Estou lendo o livro do Bastter.

    O modelo de Black & Scholes parte de duas premissas (entre outras):

    1) O mercado é eficiente; e
    2) Os retornos do ativo subjacente (a ação da qual deriva a opção, no caso) seguem uma distribuição norma/Gaussiana.

    Essa segunda premissa –>>subestima o real risco do investimento<<–. Retornos de ações NÃO seguem uma distribuição normal. Assumir essa distribuição pode simplificar a matemática envolvida, mas subestima as variações que o ativo pode sofrer, subestimando assim o risco de investir nele.

    Ele podia pelo menos deixar isso claro no livro…

    Outro ponto do qual discordo é quando ele sugere comparar o prêmio teórico da opção, calculado pelo modelo B&S, com seu valor de mercado para identificar possíveis disparidades que permitiriam ao investidor tirar proveito dessa diferença.

    Ora, se prêmio calculado pelo modelo está diferente do preço de mercado… é falha do modelo, não do mercado! Se o prêmio da opção no mercado é R$ 2,00 e o modelo B&S diz que ela deveria ser R$ 1,00, só posso concluir que o modelo está errado! E que proveito eu posso tirar disso? Nenhum, na minha opinião. O modelo tem que seguir a realidade, não o contrário!

    Responder
    1. Hugo

      Tudo bem que não é possível fazer um modelo que siga corretamente a realidade porque não poderemos prever o futuro. E, por mais que tenha defeitos graves, o modelo Black & Scholes foi o que chegou mais “perto” disso. Só que como foi criado por alguns “gênios” da economia, muitos levam a fórmula a sério demais.

      Agora, eu nunca operei opções, apenas li sobre o assunto. Opções (ou qualquer outra coisa) “mal-precificadas”, de acordo com o modelo, e com seu exemplo de opção de 2 que “deveria” custar 1, podem gerar trades de arbitragem, que era o que faziam os traders do LTCM. Também não estou muito familiarizado com arbitragem, mas levando em conta o livro When Genius Failed e essa modalidade de operações, dá para imaginar um bom uso para o B&S.

      Só que o erro de alguns usuários é não saber, ou ignorar, que quando ele não funciona, ele NÃO funciona. E o erro do bastter foi não avisar o leitor, não comentar suas falhas e ainda, pintar uma imagem de perfeição pro modelo, isso sim que foi f*da :/

      Obrigado pelo comentário!
      Abraço!

      Responder
  2. Bastter

    Ola, sempre fico atrás de críticas aos meus livros para ver no que posso melhorar e agradeço as críticas e não me importo com elas. O problema é quando acontece como nesta crítica que a crítica é em relação a algo que não escrevi. Nunca disse que o Modelo de B&S é perfeito e não uso para o que o LTCM usou e sempre cito a quebra deles.

    B&S na minha opinião não serve para prever nada no mercado, a utilidade dele é o aprendizado das opções e das operações. Segue paragrafo do livro, na página 55:

    “O brilhantismo do modelo Black and Scholes e a forma de você se beneficiar dele dizem respeito ao aprendizado das opções e a compreensão das alterações em suas operações; não tem nada a ver com previsões ou exatidão de cálculos.”

    Não trabaho com academicismos e fórmulas complexas porque meu objetivo é simplificar a compreensão das opções para os pequenos investidores como instrumento de controle de risco e não como instrumento especulativo.

    Como eu disse, as críticas nesta página a meu livro são sobre coisas que eu não escrevi no livro. Até gosto que critiquem, mas quando se referem a coisas que não escrevi, não são úteis para mim e para os leitores também não. Acho que você deveria ler o livro com mais atenção para ver que eu não escrevi nada do que você falou.

    Quanto a outra observação um modelo que dê o preço teórico = preço real é um modelo inútil, pq o preço real já sabemos. O Modelo de B&S quando determina um preço teórico não está dizendo que o mercado deveria estar no PT mas apenas mostrando uma distorção de preço X valor que você pode se beneficiar, pq seja lá o que você opere na bolsa e qual método use, a busca é sempre por distorções de preço X valor que você possa se beneficiar. Se preço for sempre = valor, vira renda fixa.

    Queria tambem convida-lo a conhecer meus novos livros de opções:

    http://links.lomadee.com/ls/RnBsfjtWbmlJa0FKcTsyMzAyMTMwODswOzE3NjszMzQ1OTgxNzswO0JS.html

    Obrigado

    Bastter

    Responder
    1. Hugo Teixeira

      Olha, não falar de position sizing é realmente perigoso, ele podia ter mencionado pelo menos alguma coisa… mas esse tipo de pensamento me preocupa… cuidado ao usar palavras como “insanidade”, “magnífica” e “gênio”… bolsa de valores não pode virar religião, tudo é variável e tudo é relativo…

      Responder
    2. Alessandro

      Estou estudando DARVAS, e concordo com vc, e vc sabe exatamente a hora de entrar qual vai ser o prejuízo se der errado, dai vai ter que dosar sua mão na entrada, bem simples não. Só quem não entendeu como funciona a técnica dele é que vai ficar querendo achar mais explicações por que tem medo de perder o dinheiro.

      Responder
  3. Julio Diogo

    O Nícolas teve uma fase em que perdeu dinheiro e foi justamente quando se juntou ao pessoal da corretora. Ouviu opiniões, blá-blá-blá infindável, boatos, etc. Chamou essa convivência contrapruducente com os ‘entendidos’ de “período de loucura”. Percebeu e caiu fora desse ambiente. Decidiu numa mais visitar um escritório de corretagem. Proibiu até que lhe telefonassem. Por telegrama recebia as cotações das ações, e só isso. E voltou a ganhar dinheiro. Longe, bem longe do blá-blá-blá que, ao invés de ajudar, só complicava. Comprava jornal, pegava as páginas de cotações e jogava fora as notícias. Jogava no lixo. Não quer dizer que não goste de notícias, Procuro ler tanto quanto possível. Sem perder o Darvas de vista, claro. E pensar que estes olhos viram alguém chamar seu livro de “divertido”!

    Responder
  4. Gustavo

    Sei dizer que o Bastter detesta ser contrariado. Qualquer um que questione seus ensinamentos são amadores fadados ao fracasso (mas ele mesmo diz que já quebrou mais de uma vez…). A principal orientação é não ouvir mais os outros, não ler notícias e seguir o que ele prega !

    Responder
    1. brazão

      É um cão pastor vendedor de cursos, métodos, palestras, CD, DVD, ou seja, nada mais do que um vendedor!
      E ganha dinheiro com isto.
      Até tem coisa que vende que pode ser aproveitável, mas quem for comprar que precisa filtrar e saber se o que está comprado vai ser útil.
      Não pode ser um fiel súdito seguidor bocó!

      Responder
  5. Bruno Alexandre de Arruda

    Eu pensei em defender o Bastter… até ver a sublime resposta do mesmo.
    Cara, períodos de crise não são constantes… o livro me ajuda há 10 anos… e toda fez que “fujo” dos ensinamentos me ferro.. vai por mim… Vale muito a pena a leitura.

    Responder
  6. £u¢y™

    Olha, eu tô conhecendo o Bastter agora, e o que ele me fez pensar é em diversificar minha carteira (hoje só tenho RF). Sempre tive desconfiança com a Bolsa, porque os gráficos mostram que o Ibovespa perde para o CDI no longo prazo (acima de 10 anos). Mas a gente sabe que o Ibovespa tem muita porcaria.
    Enfim, hoje eu penso seriamente em me tornar sócia acionista de uma boa empresa, por isso estou estudando algumas que com lucros ao longo de anos, que tenham bom fluxo de caixa, etc. Os gráficos dele ajudam muito.
    Outra coisa, pessoas como o Cerbasi dizem que imóveis não são bons investimentos. Eu até acredito mesmo, porque imóvel funciona como RV, e no sobe e desce a RF chega no mesmo patamar sem estresse. Porém, o Bastter fala uma coisa importante que o Cerbasi não enfatiza: Que tudo pode mudar, o governo pode mudar as regras da RF e isso pode ser uma catástrofe, se a pessoa não tem outras opções.
    Então, eu acho que o Bastter diz coisas muito importantes sim, ser contra o giro de patrimônio também faz muito mais sentido do que vender imóvel pra investir em RF (já vi gente famosa recomendando isso).
    Mas obedecer sem questionar nada… ele não é deus né gente =/

    Responder

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