Caro leitor,
Deixe-me te fazer uma pergunta simples:
Se você estivesse construindo uma casa para morar pelos próximos 20 anos, você começaria escolhendo a cor das almofadas? O tipo de torneira? O modelo do quadro da sala?
Claro que não.
Antes de qualquer detalhe, você decidiria a planta. Quantos andares a casa vai ter. Qual será a fundação. Onde ficam as vigas. Quanto espaço terão as salas, os dormitórios, áreas externas etc.
Pois é.
Mas no mundo dos investimentos, a maioria das pessoas faz exatamente o contrário.
Passa horas discutindo qual ação comprar, qual fundo “promete mais”, qual ativo “está barato”, qual gestor “está voando”…
Mas quase nunca decide aquilo que realmente sustenta (ou destrói) uma carteira no longo prazo:
A alocação de ativos.
Ou, em português claro: quanto vai para renda fixa, quanto vai para ações, quanto fica em caixa, quanto vai para ativos internacionais, quanto vai para proteções específicas etc.
Parece simples. E é justamente por isso que tanta gente subestima. Só que a ciência das finanças não subestima isso nem um pouco.
Harry Markowitz, um dos pais da teoria moderna de portfólios e Nobel de Economia, mudou o jeito como o mundo investe ao mostrar que o investidor não deve olhar ativos isoladamente, mas sim a combinação entre retorno esperado, risco e correlação dentro da carteira.
Em outras palavras: o que importa não é apenas “o que você compra”, mas “como as peças convivem entre si”.
Décadas depois, vieram os estudos empíricos que deixaram isso ainda mais claro.
Em 1986, Brinson, Hood e Beebower analisaram grandes planos de pensão dos EUA e concluíram que a política de alocação explicava a esmagadora maior parte da variação dos retornos ao longo do tempo.
Na atualização de 1991, o resultado permaneceu na mesma direção: algo em torno de 90% da variabilidade dos retornos ao longo do tempo vinha da política de alocação, e não de apostas táticas pontuais ou da escolha brilhante de ativos específicos.
Mas aqui entra um detalhe IMPORTANTÍSSIMO.
Esse talvez seja um dos números mais mal interpretados de todo o mercado financeiro.
Os estudos não provaram que “90% do seu retorno vem da alocação”.
Não provaram que seleção de ativos não importa (importa sim. MUITO).
E não provaram que basta escolher qualquer mix genérico e pronto.
O que foi provado foi que o ‘sobe e desce’ de uma carteira no longo prazo depende principalmente da alocação.
Já em 2000, Ibbotson e Kaplan esclareceram melhor a questão.
Eles confirmaram que a alocação explica cerca de 90% da variabilidade dos retornos (o ‘sobe e desce’ dos retornos) de um fundo ao longo do tempo, mas algo perto de 40% da diferença de retorno entre fundos diferentes.
E que, na média, a política de alocação também explica amplamente o patamar geral de retorno da carteira. Ou seja: se a carteira tende a ter um retorno maior ou menor no longo prazo.
Traduzindo: a alocação não explica TUDO, mas ela define o terreno, a temperatura e o teto de risco da sua jornada.
Percebe a diferença? É enorme. Porque isso muda completamente a pergunta que o investidor deveria fazer.
A pergunta errada é: “Qual é o melhor investimento agora?”
A pergunta certa é: “Que tipo de carteira faz sentido para os meus objetivos, para o meu prazo, para a minha necessidade de liquidez e para a minha capacidade emocional de aguentar volatilidade?”
Isso, sim, vem antes.
A própria SEC, nos Estados Unidos, ensina que alocação de ativos é o processo de dividir a carteira entre categorias como ações, bonds e caixa, e que a alocação adequada depende principalmente do horizonte de tempo e da capacidade de tolerar risco.
A Vanguard, na mesma linha, destaca que a mistura de ativos tende a definir a faixa de retornos que o investidor pode esperar.
Ou seja:
Antes de escolher ativos… Você escolhe o tipo de jornada que está disposto a suportar.
Porque é isso que a alocação faz. Ela define quanto a sua carteira pode cair. Quanto ela pode oscilar. Quanto ela pode demorar para se recuperar. E também qual é a sua chance de ficar para trás da inflação ou de não atingir seus objetivos.
E aqui vale apontar um paradoxo.
Muita gente acha que ser conservador é sempre mais seguro.
Mas uma carteira conservadora demais também pode ser perigosa. Perigosa porque rende pouco. Perigosa porque não cresce. Perigosa porque talvez não acompanhe as necessidades futuras do investidor.
A Vanguard chama atenção exatamente para isso: assumir pouco risco demais pode comprometer objetivos de longo prazo, enquanto assumir risco demais pode levar o investidor a abandonar a estratégia na hora errada.
O trabalho sério está em encontrar o equilíbrio adequado. Não o risco máximo, nem o risco mínimo.
E tem mais.
Boa alocação não é só escolher percentuais e depois esquecer a carteira numa gaveta. Ela exige rebalanceamento.
Porque o mercado mexe nas proporções por você. Se a bolsa sobe muito, a parte em ações cresce. Se a renda fixa sobe menos, ela encolhe proporcionalmente. E sem perceber, você passa a carregar um risco diferente daquele que planejou.
Por isso rebalancear não é firula. Não é perfumaria. É controle de risco.
Rebalancear é justamente trazer a carteira de volta à mistura original, porque os pesos mudam com o tempo e podem ficar desalinhados dos seus objetivos.
Agora me diga: quantos investidores você conhece que têm uma opinião fortíssima sobre a próxima ação que vai subir…
Mas não sabem dizer qual é a alocação total da própria carteira?
Pois é. Esse é o ponto. A maioria está escolhendo móveis sem planta. Tinta sem parede. Janela sem saber onde bate o sol.
E depois se espanta quando mora mal.
Investir bem não é uma competição para descobrir a próxima joia escondida. É, e sempre foi, antes de tudo, um exercício de arquitetura.
Arquitetura de risco. Arquitetura de liquidez. Arquitetura de prazo. Arquitetura de proteção.
Os ativos individuais importam? Claro que sim.
Mas eles entram DEPOIS.
Primeiro você decide a estrutura. Depois você escolhe os tijolos.
Fazer o contrário é inverter a ordem natural das coisas. E no mercado, inverter essa ordem costuma sair caro.
Então, da próxima vez que alguém tentar te vender um produto como se ele, sozinho, pudesse transformar sua vida financeira…
Pare. Respire. E faça a pergunta que quase ninguém faz:
“Esse investimento melhora a arquitetura da minha carteira… Ou só adiciona mais uma peça solta dentro dela?”
Essa pergunta simples separa o investidor que monta portfólio do investidor que apenas acumula produtos.
E produto acumulado não é estratégia. É bagunça com aparência de sofisticação.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
NA
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos
PS2: E se hoje você não consegue explicar com clareza qual é a lógica por trás da distribuição dos seus próprios investimentos, talvez o problema da sua carteira não esteja no ativo A ou B. Talvez esteja na arquitetura inteira.
PS3: E se você quiser ajuda para construir uma carteira mais coerente, robusta e alinhada aos seus objetivos, descubra como eu posso te ajudar neste link aqui.