Caro leitor,
Tem acompanhado o caso Americanas?
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) recentemente concluiu a peça de acusação que dará base ao julgamento dos responsáveis no caso de fraude da Americanas.
O ex-CEO Miguel Gutierrez e toda a antiga diretoria foram acusados formalmente.
Fraude. Manipulação. Um esquema bilionário para inflar números e garantir bônus gordos.
Parece um desfecho, certo?
Os “vilões” foram nomeados. A justiça (ao menos a administrativa) está andando.
Mas as investigações continuam, com possível extensão a outros atores.
E, se você, assim como eu, gosta de olhar além da cortina de fumaça, deve ter sentido que falta uma peça nesse quebra-cabeça.
Uma peça gigantesca, que movimenta bilhões, mas que, curiosamente, posou para a foto oficial com a faixa de “vítima”.
Estou falando dos Bancos.
Oficialmente, as grandes instituições financeiras foram enganadas. Dizem que foram ludibriadas pelas planilhas falsas da varejista.
E é importante dizer: oficialmente, eles não foram acusados. Nenhuma CPI os indiciou.
Mas já dá para dizer que os bancos são inocentes?
Vamos voltar a fita e analisar os fatos.
Como a fraude da Americanas funcionava no coração da engrenagem?
Através do chamado “Risco Sacado”.
Basicamente, funcionava assim:
A Americanas comprava do fornecedor, o banco pagava esse fornecedor à vista e a Americanas ficava devendo ao banco, com juros.
Para o banco, essa operação era o “filé mignon”. Era crédito com spread (lucro) garantido.
Agora, pare e pense por um segundo.
Os bancos têm os sistemas de risco mais sofisticados do planeta.
É no mínimo improvável que nenhum alarme teria tocado nas mesas de crédito enquanto a dívida real da Americanas explodia para R$25 bilhões.
E, de fato, as investigações apontaram para algo muito mais grave do que apenas “desatenção”.
Relatórios (da Polícia Federal e dos administradores da recuperação judicial) e delações premiadas trouxeram acusações sérias.
Foi apontado que a omissão do termo “Risco Sacado” nas cartas de circularização (aqueles documentos oficiais que os bancos enviam para a auditoria confirmar o saldo) não foi um mero “erro de sistema”.
Essa ocultação teria contado com a conivência de profissionais de dentro das instituições financeiras
As investigações indicaram que, supostamente, funcionários dos bancos teriam aceitado “limpar” a redação dos documentos enviados à PwC, uma das auditoras da Americanas, escondendo a natureza real da dívida e impedindo que a fraude fosse descoberta antes.
Significa que as instituições bancárias participaram da fraude?
Não.
Teria sido um caso de ‘algumas maçãs podres’ dentro dos bancos, sem nenhuma evidência de envolvimento ou coordenação da diretoria.
Mas, ainda assim, o que aconteceu foi que, graças a ocultação da fraude, os bancos se beneficiaram muito às custas do investidor.
Enquanto as áreas de crédito dos bancos supostamente ajudavam a maquiar a dívida, as corretoras ligadas a esses mesmos bancos mantinham recomendação de COMPRA para as ações AMER3, o que ajudava a empresa a sobreviver e protegia os juros do banco.
Imagine a cena:
De um lado, o banco sabe que a empresa está alavancada até o pescoço.
O incentivo do banco é: “Mantenha a empresa viva o máximo possível para que ela nos pague os juros antes de quebrar”.
Do outro lado, o analista do banco diz a você: “Compre essa ação, é uma oportunidade incrível”.
O que acontece nessa transação?
Ocorre uma Transferência de Risco.
Você, investidor de varejo, compra a ação. Você injeta dinheiro na empresa. Esse dinheiro mantém a empresa respirando.
E a empresa usa esse fôlego para pagar… o Banco.
Naturalmente, isso gerou uma desconfiança enorme no mercado.
Se o banco emitisse um relatório de “VENDA” e dissesse a verdade (“essa empresa está insolvente”), as ações desabariam, o crédito secaria e a Americanas quebraria antes de pagar o banco.
O banco perderia bilhões.
Ao manter a recomendação de compra (ou neutra), o show continuou.
E quem pagou a conta quando a música parou?
Você sabe a resposta.
Milhares de investidores viram seus patrimônios derreterem. Enquanto isso, os bancos, apesar das perdas, já haviam lucrado horrores com juros ao longo dos anos anteriores e hoje negociam a recuperação de seus créditos.
Mas novamente: não há evidências de que isso foi intencional por parte dos bancos.
Não encontraram nenhum e-mail com o assunto “Bora enganar os investidores Huehuehuehuehue #vidaloka”.
Além disso, devemos lembrar que, dentro de um grande banco, existe (em teoria) uma “Muralha da China” (Chinese Wall).
Uma regra sagrada que separa o departamento que empresta dinheiro (Crédito) do departamento que recomenda investimentos (Research).
Isso significa que, em tese, a área de Crédito não pode se comunicar com a área de Análise. O analista de ações não pode saber os segredos que o diretor de crédito conhece.
Ou seja:
É uma ótima explicação para a área de Análise ter ficado no escuro mesmo se área de Crédito soubesse o que estava acontecendo.
Mas vamos pensar:
Mesmo que a diretoria não tenha participado…
Ainda assim tudo indica que houve a participação de funcionários dos bancos.
Funcionários poderosos o bastante para, supostamente, ajudar a esconder uma fraude multibilionária.
Então você, como investidor, precisa se perguntar:
Se você vai num restaurante e a comida vem envenenada, o quanto realmente importa se quem colocou o veneno foi o chef ou o faxineiro?
O fato é que a comida veio envenenada.
Mesmo se na verdade o que aconteceu foi que o veneno caiu na comida por puro acidente.
O que realmente importa aqui não é responsabilizar essa ou aquela pessoa pelo que aconteceu.
É entender que o problema é o próprio restaurante, ou seja: o sistema bancário.
Um sistema que causou ou, no mínimo, permitiu que investidores fossem colocados numa situação humilhante, sem possibilidade em vista de recuperar seus patrimônios.
Pense no fato de que seria perfeitamente plausível que os bancos tivessem participado conscientemente da fraude, por conta do ENORME incentivo que existia para eles fazerem isso.
Ou no fato de que, alternativamente, os funcionários dos bancos teriam tido uma supervisão tão falha que eles teriam conseguido acobertar uma fraude de R$25 bilhões.
Ou no fato de que, mesmo se não houve má fé por parte de nenhum funcionário dos bancos, ainda assim, de alguma forma, eles ‘deixaram passar’ essa fraude por 10 ANOS antes de a verdade vir à tona.
Agora me responda:
Isso soa como um sistema no qual o investidor pode se sentir seguro?
A lição que fica, em 2026, é dura, mas necessária:
O mercado financeiro brasileiro não é brincadeira.
Em muitos aspectos, ainda é o Velho Oeste.
E sim: aos poucos ele está se civilizando, com medidas como, por exemplo, a Resolução CVM 179 (que obriga intermediários financeiros a divulgar a remuneração recebida na distribuição de produtos de investimento).
Mas ainda assim:
Ainda há muito trabalho pela frente.
Muitas mudanças institucionais para evitar conflitos de interesse e fraudes.
Muita legislação que precisa ser criada ou adaptada para proteger os investidores.
E no meio tempo você não pode vacilar.
A única arma que pode te proteger é o conhecimento.
Só com ele você pode perceber o veneno na comida antes de começar a engasgar.
Então arme-se. E cuidado com quem tem interesses opostos aos seus.
Atenciosamente,
Hugo Teixeira
Consultor de Valores Mobiliários Autorizado pela CVM; Especialista de Investimentos Certificado pela ANBIMA; Trader e Investidor Profissional há 18 Anos
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